Depois de uma separação, algumas frases podem atingir os pais de maneira especialmente dolorosa. “Prefiro ficar na casa do meu pai.” “Na casa da minha mãe é melhor.” Para quem escuta, palavras aparentemente simples podem despertar culpa, insegurança e até a sensação de estar perdendo espaço na vida do próprio filho.
Mas a preferência de uma criança por uma das casas nem sempre revela onde existe mais amor. Em determinadas situações, ela pode estar relacionada a algo muito mais imediato: onde há mais diversão, liberdade e menos limites.

A psicóloga Elisangela Niná chama atenção para um desequilíbrio que pode surgir na coparentalidade quando as responsabilidades da criação não são verdadeiramente compartilhadas. Enquanto um dos pais assume horários, escola, tarefas, consultas médicas, regras e consequências, o outro pode acabar ocupando predominantemente o lugar dos passeios, presentes e momentos de lazer.
Para uma criança, é natural que o ambiente associado ao prazer pareça mais atraente. O que não significa que aquele seja necessariamente o espaço onde exista maior cuidado ou dedicação.
É justamente aí que mora uma das partes mais silenciosas e difíceis da parentalidade: quem educa precisa, muitas vezes, suportar o desconforto de não ser o adulto mais popular. Cuidar também significa estabelecer limites, sustentar rotinas e dizer “não” quando seria muito mais fácil dizer “sim”.
A guarda compartilhada, portanto, vai além da divisão de dias e noites. O verdadeiro equilíbrio passa também pela participação nas decisões, pelo acompanhamento da vida escolar, pelos cuidados com a saúde e pela responsabilidade diante dos desafios cotidianos.
Quando apenas um dos pais carrega o peso dos limites e o outro permanece associado quase exclusivamente à diversão, a divisão pode existir no calendário, mas não necessariamente na responsabilidade.
E há uma contradição particularmente dolorosa nesse cenário: justamente aquele que acompanha, cobra, organiza e protege pode terminar ocupando, aos olhos da criança, o papel de “chato” da história.
A reflexão proposta pela especialista também alcança quem passa anos sustentando essa rotina. Em meio às exigências de criar um filho, preservar a própria saúde mental não deve ser tratado como detalhe. Afinal, cuidar de uma criança exige presença, mas quem cuida também precisa encontrar espaço para ser cuidado.
Serviço
Psicóloga Elisangela Niná
CRP 120921/06
Atendimento on-line
Palestrante corporativa
Instagram: @psielisangelanina
Por: Redação do Jornal Gazeta Nacional





































