Nunca se falou tanto sobre autismo. Nas escolas, nas famílias, nas redes sociais e nos consultórios, uma sigla passou definitivamente a fazer parte das conversas: TEA, Transtorno do Espectro Autista.
Mas o crescimento dos números provoca uma pergunta que divide opiniões: afinal, por que parece haver tantos diagnósticos de autismo atualmente?
Pela primeira vez na história, o Censo brasileiro perguntou diretamente à população sobre diagnóstico de autismo. O resultado dimensionou uma realidade até então pouco conhecida: 2,4 milhões de brasileiros declararam ter recebido diagnóstico de TEA por um profissional de saúde, o equivalente a 1,2% da população.
Nos Estados Unidos, números recentes também chamaram atenção. Entre crianças de oito anos acompanhadas por uma rede de monitoramento, aproximadamente uma em cada 31 foi identificada com autismo. No início dos anos 2000, a mesma vigilância registrava cerca de uma para cada 150.
À primeira vista, a diferença impressiona. Mas interpretar esses números simplesmente como uma “explosão de autismo” pode ser precipitado.
A própria ciência ainda procura compreender completamente essa mudança. Ampliação dos critérios diagnósticos ao longo das décadas, maior conhecimento de profissionais e famílias, identificação mais precoce e acesso aos serviços estão entre os fatores que ajudam a explicar por que hoje encontramos pessoas que provavelmente permaneceriam sem diagnóstico no passado.
Há também outra população começando a ganhar visibilidade: os adultos.
Homens e mulheres chegam aos 30, 40 ou 50 anos e descobrem que determinadas dificuldades presentes desde a infância podem estar relacionadas ao espectro autista. Para alguns, o diagnóstico tardio significa finalmente encontrar uma explicação para uma vida inteira de diferenças que receberam outros nomes.
Nas mulheres, a discussão é ainda mais delicada. Comportamentos de adaptação e camuflagem social podem contribuir para que determinadas características passem despercebidas durante anos.
Ao mesmo tempo, o crescimento da exposição do assunto nas redes sociais criou outro problema: transformar características isoladas em diagnóstico. Gostar de rotina, não suportar determinado barulho, ter dificuldade de socialização ou apresentar alguma sensibilidade sensorial não permite, isoladamente, afirmar que alguém é autista. O diagnóstico é clínico e exige avaliação adequada.
Também é preciso separar ciência de teorias que continuam circulando. Décadas de pesquisas não sustentam a alegação de que vacinas causam autismo.
Talvez, portanto, a pergunta mais importante não seja simplesmente “por que existem tantos autistas agora?”, mas quantas pessoas autistas sempre estiveram entre nós sem serem compreendidas.
Os números cresceram. A visibilidade também. O desafio daqui para frente será garantir que o aumento da conscientização venha acompanhado de diagnóstico responsável, assistência, inclusão e respeito, sem transformar uma condição complexa em tendência de internet.
Por: Redação do Jornal Gazeta Nacional





































