A alta-costura sempre ocupou um território particular dentro da moda. É o espaço em que a funcionalidade deixa de ser a única medida de uma roupa e técnicas artesanais, construção, imaginação e tempo passam a determinar o verdadeiro valor de uma criação.
Em Paris, a Chanel voltou a demonstrar a força desse universo ao apresentar sua coleção de Alta-Costura Outono/Inverno 2026, em um desfile que transformou referências de contos de fadas em linguagem de moda e marcou mais um capítulo da trajetória de Matthieu Blazy à frente da histórica maison francesa.
Realizada durante a Semana de Alta-Costura de Paris, entre os dias 6 e 9 de julho, a temporada reuniu cerca de 30 casas e confirmou um momento particularmente interessante para o segmento mais exclusivo da indústria da moda.
Para a Chanel, no entanto, havia uma expectativa adicional.
A apresentação representou a segunda coleção de alta-costura de Blazy para a maison e ajudou a revelar com maior clareza como o estilista pretende conduzir uma das marcas mais influentes da história da moda sem abandonar os códigos construídos por Gabrielle Chanel.
O caminho escolhido passou pela fantasia.
O universo dos contos de fadas serviu como ponto de partida para uma coleção em que natureza, memória e imaginação atravessaram roupas construídas com o nível de trabalho artesanal que caracteriza a alta-costura parisiense.
O cenário também participou dessa narrativa.
No Grand Palais, espaço historicamente associado aos grandes espetáculos da Chanel, a atmosfera ganhou proporções quase irreais, com vegetação monumental e flores de aparência surreal ajudando a construir um ambiente situado entre realidade e imaginação.
Referências a histórias conhecidas da infância apareceram no processo criativo de Blazy. Elementos ligados a contos como “João e o Pé de Feijão”, “Cachinhos Dourados”, “O Gato de Botas” e “O Patinho Feio” ajudaram a alimentar um universo no qual a roupa parecia carregar fragmentos de uma narrativa fantástica.
Mas a fantasia não significou afastamento da identidade Chanel.
Ao contrário, um dos movimentos mais importantes da atual fase da maison está justamente na maneira como seus símbolos históricos vêm sendo observados novamente.
Durante décadas, elementos como o tailleur, o tweed, a construção precisa, os contrastes entre feminino e masculino e a valorização do trabalho artesanal formaram um vocabulário imediatamente reconhecível.
Sob Blazy, esse vocabulário começa a ganhar novas interpretações.
Na coleção de alta-costura, vestidos receberam aplicações inspiradas em folhas, flores tridimensionais e formas orgânicas. Borboletas, vegetação e referências ao mundo natural surgiram também nos acessórios, enquanto volumes e superfícies reforçaram a sensação de que cada peça pertencia àquele cenário fantástico construído para o desfile.
Existe, porém, uma leitura maior por trás da imagem.
A alta-costura vive um momento curioso dentro da indústria global do luxo. Enquanto diferentes segmentos da moda enfrentam um ambiente econômico mais cauteloso, a demanda pelo extraordinário, pelo exclusivo e pelo feito à mão continua sustentando um mercado destinado a uma clientela extremamente restrita.
É justamente nesse território que casas como a Chanel conseguem demonstrar algo que vai além da comercialização de roupas.
A alta-costura funciona também como laboratório de criatividade, preservação de técnicas e demonstração da capacidade artesanal das maisons.
No caso da Chanel, essa relação é particularmente importante pela estrutura de métiers d’art ligada à casa e pelo papel dos artesãos especializados na construção de bordados, plumas, flores, joias, acessórios e acabamentos que dificilmente poderiam ser reproduzidos em escala industrial.
Cada desfile, portanto, também funciona como uma declaração sobre a permanência do trabalho manual em uma indústria cada vez mais atravessada pela velocidade e pela tecnologia.
E talvez seja justamente esse contraste que torne a coleção apresentada em Paris especialmente simbólica.
Enquanto o mundo acelera, a alta-costura continua exigindo tempo.
Enquanto tendências surgem e desaparecem em poucos dias nas redes sociais, algumas peças continuam dependendo de inúmeras horas de desenvolvimento e execução.
E enquanto a indústria procura constantemente aquilo que será o próximo fenômeno comercial, a Chanel escolheu olhar para algo muito mais antigo: a capacidade humana de imaginar histórias.
A escolha dos contos de fadas não parece, portanto, apenas decorativa.
Existe nela uma tentativa de recuperar o encantamento como instrumento criativo e de lembrar que a moda também pode ocupar um espaço menos pragmático, no qual vestir não significa simplesmente cobrir o corpo, mas construir personagens, provocar emoções e permitir novas interpretações sobre quem somos.
Para Matthieu Blazy, esse movimento acontece em um momento decisivo.
Assumir a direção artística da Chanel significa trabalhar diante de um dos patrimônios criativos mais reconhecidos da moda mundial. A tarefa não está simplesmente em preservar o passado, mas em encontrar uma maneira de fazê-lo conversar com uma nova geração.
Sua segunda coleção de alta-costura indica que essa construção passa menos por romper com Gabrielle Chanel e mais por estabelecer um diálogo com ela.
A própria coleção ready-to-wear Outono/Inverno 2026 já havia sido apresentada pela maison como uma conversa entre Gabrielle Chanel e Matthieu Blazy, entre simplicidade e brilho, passado e presente.
Na alta-costura, esse diálogo ganhou fantasia.
Paris assistiu, assim, a uma Chanel que continua reconhecível, mas que parece disposta a permitir que seus códigos históricos entrem em novos territórios.
Mais de um século depois de Gabrielle Chanel começar a transformar a maneira como as mulheres se vestiam, a maison permanece diante do mesmo desafio enfrentado pelas grandes casas que atravessam gerações: preservar aquilo que as tornou históricas sem permitir que a própria história se transforme em limite.
Com Matthieu Blazy, a Chanel parece buscar justamente esse equilíbrio.
E, desta vez, escolheu um conto de fadas para começar a escrevê-lo.
Por: Redação do Jornal Gazeta Nacional






































