
Passado o Dia dos Namorados, enquanto algumas flores murcham nos vasos e jantares viram lembrança nas redes sociais, muitas mulheres tentam recolher os cacos de mais uma noite de terror. Para elas, a data não termina com beijos ou declarações. Termina em silêncio, choro contido, agressões e, em alguns casos, termina em morte. Porque, sim, o dia do amor também deixa para trás vítimas de feminicídio.
Pesquisas mostram que logo após datas comemorativas como Natal, Ano Novo e, sim, o Dia dos Namorados, há um aumento nas ocorrências de violência doméstica. Os números não mentem: o amor, quando confundido com posse e controle, pode se transformar em sentença.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é vítima de agressão a cada quatro minutos no Brasil. Em 2023, foram registrados 1.463 feminicídios, o maior número desde a tipificação do crime em 2015. A cada dia, pelo menos quatro mulheres são assassinadas por razões de gênero. E essa é só a face mais visível do problema. A maioria das violências permanecem entre quatro paredes, sem registro, sem amparo, sem voz.
É dentro do lar, lugar que deveria ser refúgio, que milhares de brasileiras vivem sob constante ameaça. A maioria dos agressores? Parceiros, ex-companheiros ou pessoas com quem compartilharam afeto, confiança e história. A idealização do amor romântico, muitas vezes, encobre o abuso. Afinal, como denunciar quem jura que ama? Como reconhecer o perigo quando ele chega com um buquê na mão?

A dor física é brutal, mas não é a única. Há as dores invisíveis: a dependência econômica, o medo de não serem acreditadas, o isolamento, a vergonha. Muitas mulheres permanecem em relações abusivas não porque “gostam de apanhar”, como diz a crueldade popular, mas porque não têm para onde ir, nem com quem contar. Porque o abandono institucional é tão cruel quanto a violência íntima.
E por isso é fundamental falar, com urgência, com coragem, com verdade. Violência doméstica não começa com o tapa. Começa com o controle disfarçado de cuidado, com os ciúmes travestidos de amor, com a manipulação cotidiana que enfraquece a autoestima e silencia a liberdade. Começa com o machismo estrutural, tão presente nas canções românticas quanto nas delegacias abarrotadas.
Como Presidente da Comissão de Combate à Violência Doméstica e Familiar da OAB/DF, vejo com frequência o quanto o sistema ainda falha em proteger e o quanto ele pode ser transformador quando atua com responsabilidade, escuta ativa e compromisso com a dignidade humana. Precisamos de acolhimento qualificado, de políticas públicas que deem autonomia, de educação para relações saudáveis desde cedo.
Mas também precisamos de um compromisso social mais profundo: com a verdade, com a escuta, com a ação. O enfrentamento à violência doméstica não é uma pauta feminina é um dever coletivo. É responsabilidade do Estado, das famílias, da mídia, das empresas, dos homens e das instituições.
Porque ninguém sai ileso de uma sociedade que violenta suas mulheres. O que começa dentro de casa reverbera nas ruas, nas escolas, nos hospitais, nos tribunais e, principalmente, nas vidas perdidas antes do tempo.
Que este texto, publicado no dia seguinte ao que muitos chamam de “dia do amor”, sirva como espelho para nossas omissões e como chamado à mudança. Que flores e jantares não nos ceguem diante das relações que matam em nome do afeto. E que o amor, o verdadeiro amor, nunca machuque, que acolha, que respeite, que liberte.
E você? Está mesmo celebrando o amor ou apenas fechando os olhos para a dor de quem o confunde com violência?
Por: Leila Santiago
Instagram: @leilasantiago





































