São Paulo, 2025 – O consumo de suplementos alimentares nunca esteve tão em alta. De cápsulas que prometem energia e foco a pós que garantem longevidade e imunidade fortalecida, o mercado da “saúde em frascos” movimenta bilhões todos os anos. Mas por trás da estética minimalista das embalagens e dos slogans inspiradores, cresce um debate que divide especialistas: afinal, até que ponto os suplementos realmente fazem bem à saúde?
O que antes era indicado apenas sob prescrição médica hoje se tornou parte da rotina de milhões de brasileiros — influenciados por celebridades, influenciadores fitness e campanhas que vendem a ideia de um corpo perfeito e uma mente equilibrada com o simples hábito de engolir uma cápsula ao dia. Entretanto, segundo pesquisas recentes publicadas em revistas científicas internacionais, a maioria dos suplementos não oferece benefícios comprovados para pessoas saudáveis. Em alguns casos, o consumo excessivo pode inclusive causar danos. Vitaminas lipossolúveis, como A, D, E e K, podem se acumular no organismo e gerar intoxicação, enquanto megadoses de minerais alteram o funcionamento do fígado e dos rins.
O Brasil é atualmente o terceiro maior consumidor de suplementos do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (ABIAD) indicam que cerca de 60% dos brasileiros adultos utilizam algum tipo de suplemento — número que cresceu exponencialmente após a pandemia. Apesar disso, a regulamentação do setor ainda é considerada frágil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) classifica os suplementos como “alimentos”, e não como medicamentos, o que reduz o rigor das exigências para comprovação de eficácia. Em outras palavras, muitas marcas chegam às prateleiras sem passar por testes clínicos robustos.
Para o endocrinologista Dr. Fábio Neves, especialista em metabolismo e nutrição clínica, há uma crença equivocada de que, se o produto é natural, não faz mal. “Isso é um erro grave”, afirma o médico. “O excesso de qualquer substância — até mesmo de vitaminas — pode causar desequilíbrios sérios. O que define o benefício é a necessidade real, não a moda.”
O fenômeno dos suplementos da moda também está diretamente ligado à era digital. Celebridades e influenciadores promovem marcas de colágeno, ômega 3, multivitamínicos e compostos de ervas com apelos de beleza e performance, muitas vezes sem qualquer respaldo científico. A nutróloga Dra. Juliana Moraes alerta que o perigo está na confusão entre indicação estética e prescrição médica. “Nem tudo o que melhora o cabelo ou a pele em uma pessoa terá o mesmo efeito em outra. Suplementação é algo extremamente individualizado”, explica.
Além disso, muitos consumidores acreditam que suplementos substituem uma alimentação equilibrada — um erro que pode custar caro à saúde a longo prazo. A indústria dos suplementos alimentares se apoia na promessa de resultados rápidos e acessíveis, em um mundo cada vez mais imediatista. No entanto, os especialistas lembram que o corpo humano não funciona sob atalhos. Quando há deficiência nutricional diagnosticada, a suplementação é bem-vinda e necessária, mas fora desse contexto, ela é inútil — e pode ser perigosa.
Estudos recentes publicados no New England Journal of Medicine apontam que o uso indiscriminado de multivitamínicos não reduz o risco de doenças crônicas nem aumenta a longevidade. Em alguns casos, pode até elevar o risco de mortalidade precoce. A solução, segundo os profissionais de saúde, está na educação nutricional. Entender que uma boa alimentação, sono adequado, hidratação e atividade física continuam sendo os pilares da saúde é essencial.
Enquanto isso, cresce a necessidade de campanhas de conscientização e de uma regulação mais rigorosa. “Não se trata de demonizar os suplementos, mas de promover o uso responsável”, reforça a Dra. Moraes.
Os suplementos podem ser aliados — desde que usados com sabedoria. O problema não está no produto em si, mas na falta de orientação. E em tempos de promessas instantâneas, lembrar que nenhum comprimido substitui hábitos saudáveis é, talvez, o verdadeiro segredo de uma vida equilibrada.
Por: Redação da Gazeta






































