Por Viviane Pratis, correspondente em Londres
Quando a moda veste a sombra: o que as passarelas de 2026 dizem sobre nós?
Há momentos em que observar uma passarela é quase como observar a sociedade através de um espelho. Não um espelho perfeito. Talvez um espelho distorcido, exagerado, teatral. Mas ainda assim um reflexo.
Nos últimos anos, esse reflexo parece ter escurecido.Corpos aprisionados em estruturas rígidas. Corsets que lembram armaduras. Couro, correntes, transparências, rostos apagados, olhos negros, silhuetas quase desumanizadas. Referências medievais, góticas, religiosas e até fantasmagóricas passaram a ocupar um espaço surpreendentemente grande dentro da moda contemporânea.
Em 2025, vimos esse imaginário aparecer repetidamente nas passarelas. Simone Rocha, Balenciaga, Rick Owens, Dilara Findikoglu e outras marcas exploraram, cada uma à sua maneira, um universo de desconforto, contenção, transgressão e escuridão. No caso de Dilara, por exemplo, a colecção Primavera/Verão 2026 apresentada em Londres misturou referências vitorianas, corseteria, bondage e símbolos religiosos numa narrativa chamada Cage of Innocence, ou “Gaiola da Inocência”.
Poderíamos simplesmente chamar isso de tendência. Mas talvez valha a pena fazer uma pergunta mais incómoda: Por que a moda está tão fascinada pela escuridão?
A roupa como reflexo do medo
Moda nunca foi apenas roupa.
O que vestimos carrega inevitavelmente alguma coisa do mundo no qual vivemos. E o mundo de 2026 não é exatamente leve.
O relatório The State of Fashion 2026, produzido pela McKinsey em parceria com o Business of Fashion, mostra uma indústria que já não descreve o futuro apenas como “incerto”, mas como “challenging”, desafiador. Quarenta e seis por cento dos executivos entrevistados esperavam uma deterioração das condições do setor durante 2026, num ambiente marcado por instabilidade económica, mudanças tecnológicas, tensões comerciais e preocupação com a confiança dos consumidores, ou seja, uma sociedade cercada por instabilidade económica, conflitos, ansiedade tecnológica e insegurança climática.
Não surpreende, portanto, que algumas roupas estejam começando a parecer armaduras.
Em Milão, no Outono/Inverno 2026, o preto voltou a dominar inúmeras colecções. Na estreia de Maria Grazia Chiuri na Fendi, os 17 primeiros looks foram completamente negros. Na Max Mara, a inspiração chegou literalmente das armaduras medievais.
Alessandro Dell’Acqua, da Nº21, ofereceu talvez uma das definições mais interessantes daquele momento: o preto representava o vazio e a falta de clareza do presente, mas também uma página em branco sobre a qual seria possível construir alguma coisa nova.
Esta distinção é importante. A escuridão pode representar destruição, mas também pode representar procura pela luz, pelo recomeço.
Estamos assistindo ao lado obscuro da humanidade?
É tentador olhar para algumas imagens das passarelas contemporâneas e concluir que sim, mas acredito que a resposta seja mais complexa.Não penso que um vestido sombrio ou uma imagem perturbadora prove que nos tornamos uma sociedade moralmente pior, pelo menos não quero pensar, seria uma conclusão fácil demais.
A moda amplifica os sentimentos de uma época. Ela transforma ansiedade em volumes, medo em couro, vulnerabilidade em corsets e insegurança em armaduras, assim como nosso corpo transforma ansiedade e medo, em ataques de pânico.
E existe ainda outro elemento: a provocação tornou-se uma moeda valiosa.
Na era das redes sociais, um vestido simplesmente bonito pode desaparecer em segundos numa timeline. Um look chocante circula pelo mundo inteiro. A extravagância gera fotografia. A bizarrice gera comentário. A polémica gera alcance, e convenhamos, hoje as pessoas e marcas, fazem quase tudo por um like.
Nem toda escuridão apresentada numa passarela é, portanto, uma reflexão filosófica profunda. Algumas vezes, ela é também estratégia de comunicação.Mas quando o mesmo sentimento aparece simultaneamente em dezenas de criadores, alguma coisa merece ser observada.
E 2027? Mais escuridão?
Os primeiros sinais dizem que sim. Mas não apenas isso.
Os desfiles de Outono/Inverno 2026 mostraram algo que considero ainda mais interessante: uma batalha estética entre medo e esperança.
Em Paris, apareceram capas enormes e roupas concebidas quase como abrigo. Nicolas Ghesquière descreveu algumas peças da Louis Vuitton através das ideias de resistência e protecção, dizendo que a roupa deveria aquecer, proteger e, de certa maneira, funcionar como uma casa.
Noir Kei Ninomiya levou essa ansiedade quase literalmente para o corpo, apresentando estruturas metálicas, espinhos e formas semelhantes a caixas torácicas envolvendo as modelos.
Na Gabriela Hearst, McQueen e Givenchy, a British Vogue identificou uma forte atmosfera gótica. Capas, corseteria, rendas e uma feminilidade quase saída de romances antigos coexistiram com outra tendência igualmente importante: fantasia, folklore e escapismo.
Porque talvez, quando a realidade se torna excessivamente pesada, o ser humano faça aquilo que sempre fez: Sonha.
Depois da armadura, a delicadeza
É aqui que começo a enxergar o que talvez veremos em Setembro.
Não acredito que Londres, Milão e Paris apresentarão simplesmente uma continuação do “dark”. Acredito que veremos uma reação a ele. E já existem sinais.
Romantismo. Rendas. Flores. Silhuetas femininas. Folklore. Artesanato. Cores inesperadas. Referências à infância. Fantasia. Roupa feita para confortar, não para provocar.
Até Alexander McQueen, numa colecção descrita como profundamente sombria, terminou o desfile de Paris com um vestido branco coberto por flores bordadas, como um sinal de que existe luz no fim do túnel, existe arco-iris após uma tempestade.
O director criativo Seán McGirr explicou que aquele último look representava sair para um jardim e finalmente estar livre.
“O futuro está um pouco quebrado”, reconheceu ele. Mas havia esperança.
Talvez este seja o detalhe mais importante de todos. Porque a moda pode estar vestindo a nossa ansiedade. Mas parece estar começando também a procurar uma saída para ela.
Agora, todos os olhos se voltam para Londres
Daqui de Londres, essa será precisamente a pergunta que levarei comigo para a próxima Fashion Week.
De 17 a 21 de Setembro, a cidade volta a receber alguns dos nomes mais importantes da moda britânica. Burberry, Erdem, Harris Reed, Richard Quinn, Roksanda e Simone Rocha estão confirmados, enquanto Alexander McQueen regressa ao calendário londrino com Seán McGirr e a Mulberry apresenta a primeira colecção de Christopher Kane à frente da casa.
Depois virão Milão. E Paris.
E talvez as roupas que surgirem diante de nós respondam a uma pergunta muito maior do que “o que vamos vestir no próximo verão?”, talvez responda a pergunta: Que tipo de mundo estamos tentando construir?
Se a moda realmente funciona como um espelho da sociedade, as próximas semanas poderão dizer bastante sobre nosso estado de espírito. Talvez encontremos mais armaduras.Talvez mais sombras.Talvez mais estranheza.
Mas espero encontrar também aquilo que começou discretamente a aparecer entre rendas, flores e tecidos: uma necessidade de recuperar beleza, feminilidade, humanidade e esperança.
Porque talvez o verdadeiro luxo do nosso tempo não seja simplesmente possuir mais.Talvez seja conseguir preservar a delicadeza num mundo que constantemente nos convida a endurecer.
E isso, para mim, também é elegância com propósito.
Viva com Propósito e até logo!
Viviane Pratis
@vivianepratiss
Colunista de Moda e Lifestyle
Jornal Gazeta Nacional






































