
A emoção de um gol, a expectativa pelo apito final e a paixão que mobiliza milhões de torcedores durante uma Copa do Mundo passaram a dividir espaço com um fenômeno que cresce em ritmo acelerado: as apostas esportivas online. O que para muitos começa como uma brincadeira aparentemente inofensiva pode evoluir silenciosamente para um problema capaz de comprometer a saúde mental, a estabilidade financeira e a estrutura familiar.
A expansão das chamadas BETs transformou o celular em um verdadeiro cassino disponível vinte e quatro horas por dia. Com poucos toques na tela, qualquer pessoa pode apostar em resultados, estatísticas e lances de uma partida, estimulada por campanhas publicitárias cada vez mais agressivas e pela presença constante de influenciadores, ex-atletas, narradores e jogadores promovendo plataformas de apostas durante transmissões esportivas.
Para o neurocirurgião Dr. Kleber Duarte, esse cenário exige um olhar muito além do entretenimento. Segundo o especialista, o crescimento das apostas digitais representa um desafio crescente para a saúde pública e demanda atenção urgente de profissionais, famílias e autoridades.
Embora a discussão costume se concentrar nos jovens, outro grupo desperta preocupação: a população idosa. O envelhecimento da sociedade brasileira trouxe consigo novos desafios, e o envolvimento crescente de pessoas da terceira idade com jogos de azar figura entre eles.
Após a aposentadoria, mudanças na rotina, maior disponibilidade de tempo, redução da renda ativa e alterações no convívio social podem aumentar a vulnerabilidade emocional. Em muitos casos, perdas familiares, solidão, ansiedade e sintomas depressivos fazem com que as apostas deixem de ser apenas uma forma de lazer e passem a representar uma tentativa de aliviar dores emocionais ou recuperar dificuldades financeiras.
Ao contrário de modalidades tradicionais, como o bingo presencial, que favorecem a convivência entre participantes, as plataformas digitais tendem a incentivar uma prática solitária, repetitiva e silenciosa, dificultando que familiares percebam os primeiros sinais de dependência.
As consequências podem ser devastadoras. Estudos associam o transtorno relacionado aos jogos de azar ao aumento dos casos de ansiedade, depressão, estresse crônico, isolamento social e até ideação suicida. Paralelamente, perdas financeiras sucessivas podem comprometer economias construídas ao longo de décadas, gerar endividamento e reduzir significativamente a autonomia do idoso.
Dentro das famílias, os reflexos também são profundos. O comportamento costuma ser escondido por vergonha, alimentando conflitos, rompimento da confiança e desgaste emocional entre familiares. Muitas vezes, o problema só é descoberto quando os prejuízos financeiros já alcançaram grandes proporções.
O Dr. Kleber Duarte ressalta, entretanto, que apostar ocasionalmente não caracteriza, por si só, uma doença. O sinal de alerta surge quando o jogo deixa de ser recreativo e passa a ocupar espaço central na vida da pessoa, levando à perda de controle, ao uso de recursos destinados às necessidades básicas, à tentativa compulsiva de recuperar prejuízos e ao comprometimento das relações pessoais, profissionais e financeiras.
Para enfrentar essa realidade, especialistas defendem uma abordagem integrada. Além do acompanhamento psicológico, especialmente por meio da terapia cognitivo-comportamental, o fortalecimento do apoio familiar, a promoção de atividades sociais e cognitivas e a criação de estratégias de educação financeira são considerados fundamentais para reduzir os riscos da dependência.
O cenário brasileiro, entretanto, preocupa. Enquanto o país se consolida como um dos mercados de apostas esportivas que mais crescem no mundo, ainda avança lentamente na criação de políticas públicas voltadas à prevenção, ao monitoramento e ao tratamento dos transtornos relacionados ao jogo.
Na avaliação do especialista, a rápida expansão das plataformas digitais, impulsionada por intensa publicidade e pela facilidade de acesso, ocorreu sem que houvesse, na mesma velocidade, investimentos consistentes em educação financeira, campanhas de conscientização e ampliação dos serviços especializados em saúde mental.
Mais do que uma questão individual, o avanço das BETs representa um fenômeno social que impacta famílias, economia e sistemas de saúde. Diante desse novo cenário, especialistas defendem que informação de qualidade, regulamentação responsável da publicidade e acesso ao tratamento sejam prioridades para evitar que uma diversão de poucos minutos resulte em consequências que podem acompanhar uma vida inteira.
Sobre o especialista
Dr. Kleber Duarte é médico neurocirurgião com quase 30 anos de atuação em neurocirurgia funcional e tratamento da dor. Atualmente coordena o Serviço de Neurocirurgia para Saúde Suplementar e Neurocirurgia em Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). É referência em técnicas cirúrgicas e procedimentos de estereotaxia voltados ao tratamento de doenças do sistema motor e de dores crônicas.
Instagram: @drkleberduarte
Por: Redação da Gazeta






































