
A inteligência artificial já faz parte da rotina dos consultórios e começa a transformar a forma como pacientes enxergam a própria imagem. Durante a 45ª Jornada Carioca de Cirurgia Plástica, um dos principais encontros científicos da especialidade, o tema ganha ainda mais relevância ao estimular discussões sobre inovação, ética, expectativas e responsabilidade médica. Neste artigo, a cirurgiã plástica Dra. Pamela Fontes propõe uma reflexão sobre como essa transformação tem alterado a relação entre expectativas, tecnologia e responsabilidade médica.
Cada vez mais, pacientes entram no consultório segurando o celular e fazem a mesma pergunta:
— Doutora, dá para ficar assim?
Antes de responder, às vezes tenho vontade de fazer outra pergunta:
— Essa pessoa existe?
Na maioria das vezes, a resposta é não.
Não se trata de uma artista, uma influenciadora ou alguém famoso nas redes sociais. É uma imagem criada por inteligência artificial. Um rosto que nunca envelheceu. Um corpo que nunca passou por uma gestação. Uma pele que nunca cicatrizou. Uma pessoa que nunca existiu.
Essa cena, que até pouco tempo parecia distante, passou a fazer parte da rotina de muitos consultórios.
E ela revela uma mudança silenciosa.
Durante anos, as pessoas compararam sua aparência com a de outras pessoas. Agora, começam a se comparar com versões idealizadas de si mesmas, criadas em poucos segundos por um algoritmo.
A tecnologia ampliou nossa capacidade de imaginar. Isso é extraordinário. O desafio começa quando a imaginação passa a ser confundida com uma promessa.
A expectativa nasce na tela. A anatomia existe na pessoa.
É exatamente nesse espaço que a imaginação encontra seus limites e a medicina encontra seu propósito.
Nenhuma inteligência artificial conhece a espessura da pele de um paciente. Não conhece sua vascularização ou sua capacidade de cicatrização. Não conhece suas doenças, seus riscos ou a forma como seu corpo responderá a uma cirurgia. O médico precisa conhecer, porque uma imagem pode ignorar a biologia; a medicina, não.
É por isso que a responsabilidade médica nunca termina na fotografia apresentada durante uma consulta. Ela começa ali. Começa quando é preciso dizer “sim”, “não” ou “não agora”. Começa quando é necessário explicar que nem tudo o que pode ser imaginado pode, ou deve, ser realizado.
A inteligência artificial continuará evoluindo. Ela já transforma a pesquisa, o ensino e o planejamento cirúrgico, e isso merece ser celebrado. Talvez o maior desafio da medicina não seja acompanhar a velocidade da tecnologia, mas preservar algo que nenhuma tecnologia consegue substituir: o julgamento clínico, a responsabilidade e a confiança.
Expectativas podem ser criadas em segundos. Confiança leva anos para ser construída.
Uma imagem pode ser gerada instantaneamente. Um corpo precisa respeitar a anatomia, a biologia, o tempo e a cicatrização.
O algoritmo cria infinitas possibilidades. O médico responde por uma única realidade: a pessoa que está à sua frente.
Por Dra. Pamela Fontes Cirurgiã Plástica • Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)






































