A gente fala pouco sobre o quanto ter amigos também é uma questão de saúde mental. E não é sobre ter dezenas de pessoas ao redor. É sobre construir e, principalmente, conseguir sustentar vínculos. Porque existe uma diferença entre estabelecer limites e se tornar tão intolerante às falhas humanas que, pouco a pouco, vamos ficando sem ninguém.
Às vezes, em nome de proteger a nossa paz, começamos a romper relações diante de qualquer frustração~: um amigo falhou, não respondeu como esperávamos, atravessou uma fase mais difícil, estava menos disponível.
Claro que existem relações que precisam terminar. Mas existem outras que não precisam ter um fim; precisam de conversa, negociação, reparação e alguma flexibilidade.
Relações humanas suficientemente boas não são relações sem incômodo. São relações em que existe espaço para diferença, limite e reparo. E isso importa mais do que parece.

Uma revisão publicada em 2024 sobre conexão social e saúde mental reuniu evidências mostrando a relação entre solidão, isolamento social e piores desfechos psicológicos, incluindo sintomas depressivos.
E, mais recentemente, em 2025, a Organização Mundial da Saúde voltou a colocar a conexão social no centro dessa discussão, tratando a solidão e o isolamento como uma questão de saúde pública e destacando que vínculos sociais estão relacionados não apenas ao bem-estar e à saúde mental, mas também à saúde física e à longevidade; ou seja, ter vínculos não é só um detalhe da nossa vida. É parte daquilo que nos sustenta.
E existe uma dimensão disso que considero especialmente importante para as mulheres: quanto mais a nossa vida emocional fica concentrada em uma única pessoa, maior pode se tornar o peso daquela relação.
Se o meu parceiro é também a única pessoa com quem converso, saio, divido meus medos, comemoro minhas conquistas e procuro quando estou mal, terminar essa relação não significa perder apenas um parceiro; subjetivamente, pode parecer que significa perder a minha vida inteira.
E isso se torna ainda mais delicado quando estamos falando de relações abusivas. O isolamento pode diminuir as referências externas que ajudam uma mulher a perceber o que está vivendo. Quando existem outros vínculos, existem também outros lugares de troca, acolhimento e contraste. Existe alguém que pode olhar de fora e dizer: “Isso que está acontecendo com você não está certo.”
Ter uma rede de apoio não determina que uma mulher vá embora de uma relação ruim. Mas, amplia possibilidades.
E talvez exista uma ideia de autonomia emocional que precise ser discutida: autonomia não é aprender a não precisar de ninguém.
Autonomia é poder se relacionar sem transformar uma única relação na condição para a existência de todas as outras.
Amigos não servem apenas para preencher finais de semana. Eles ampliam o nosso mundo; por isso, antes de eliminar alguém da sua vida diante de cada desconforto, talvez valha perguntar: essa relação realmente me machuca ou ela apenas está exigindo de mim uma habilidade que toda convivência exige em algum momento, conversar, flexibilizar, frustrar-me, reparar e continuar? Porque cuidar dos vínculos também pode ser uma forma de cuidar da própria saúde mental.
Referências:
Social Connection and Mental Health. Revisão publicada em 2024 e disponível no PubMed Central (PMC).
World Health Organization. Commission on Social Connection. Relatório Global sobre conexão social, solidão e isolamento social, publicado em 2025.
Sobre a Psicóloga Elisangela Niná (CRP 120921/06) – Graduada em Psicologia pela UNIP (Universidade Paulista UNIP, em 2011 e pós-graduada em Psicopedagogia pela ‘Anhembi Morumbi’. Tem formação em Neuropsicologia pelo CETCC (Centro de Estudos em Terapia Cognitivo Comportamental). Tem formação em Transtornos Alimentares pela USP (Universidade de São Paulo). Faz atendimento on-line. É palestrante corporativa.
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