A primeira lembrança de Catherine Mathivat do café Les Deux Magots remonta aos seus 10 anos de idade, no final da década de 1970, quando passava fins de semana com seus avós, proprietários e moradores do andar de cima do já célebre local parisiense. “Ficava ao lado do caixa observando o movimento dos garçons e dos clientes. Me recordo bem dos ruídos quando fechavam o terraço à noite”, conta. Hoje, aos 51 anos, é ela quem comanda o emblemático café, ancorado no coração do bairro de Saint-Germain-des-Près.

Em 1914, seu bisavô Auguste Boulay, garçom em um outro café da cidade, fez um empréstimo, comprou o estabelecimento, e desde então o negócio permaneceu nas mãos da família. Do bisavô para o avô, depois para o pai e agora com a filha na direção, o Deux Magots procura perpetuar sua história, mesmo que a efervescência artística e literária dos áureos tempos de Saint-Germain-des-Près seja coisa do passado. Foi-se a época em que suas mesas acolhiam os poetas Arthur Rimbaud e Paul Verlaine, o casal de filósofos Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir (que ali escreveu “Os mandarins”, romance que deu o nome a uma das salas do café) e tantas outras personalidades, em animados debates e conversas etílicas. Em seu terraço, Picasso se apaixonou por Dora Maar, que se tornaria sua eterna musa, na época em que pintava o quadro “Guernica” no ateliê da rua de Grands-Augustins, nas vizinhanças.
Celebridades francesas e estrangeiras do mundo da moda, do cinema, das artes ou das letras ainda frequentam o local. J.J. Abrams pariu nas mesas do café o roteiro do sétimo episódio da saga Stars Wars. “Assisti às filmagens no café de ‘Todos dizem eu te amo’, de Woody Allen. Também já cruzei com atrizes, atores ou presidentes, como Valéry Giscard d’Estaing, almoçando com seu filho. Como eles não são incomodados, apreciam vir, se isolam em um canto”, conta Catherine.
O café surgiu como um comércio, em 1812, de nome inspirado em uma peça de teatro daquele ano, “As duas estatuetas da China”, de Charles-Auguste Sewrin, no número 24 da Rua de Buci. Em 1873, mudou para o endereço atual para ampliar seu espaço. “Desde 1885, passou a ser um café, repleto de fumaça de cigarro e copos de absinto. Antes disso, era uma loja de tecidos e novidades. Meu bisavô, que teve a sorte de não ser convocado para lutar na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o transformou como é hoje, a decoração atual data daquela época. Depois, meu avô fez algo bem mais luminoso, com paredes envidraçadas. E as duas estátuas de chineses, os dois magots, são as mesmas da loja do início”, explica a proprietária.






































