Um debate técnico, silencioso até pouco tempo atrás, acaba de ganhar contornos públicos e controversos. A decisão do Comitê de Imunização dos Estados Unidos de recomendar a remoção do conservante tiossérico (thimerosal) das vacinas contra a gripe reacendeu a tensão entre ciência, política e a confiança da população nos imunizantes. A medida, motivada por pressões de grupos que historicamente levantam dúvidas sobre a segurança das vacinas, levanta agora uma questão crucial: estamos protegendo vidas ou alimentando desinformação?
O tiossérico é um composto à base de etilmercúrio utilizado há décadas como conservante em vacinas multi‑dose. Sua função é evitar contaminações por bactérias e fungos nos frascos que serão usados mais de uma vez — algo essencial para campanhas de vacinação em larga escala, principalmente em países de baixa e média renda.
Desde os anos 2000, por precaução, o composto foi retirado da maioria das vacinas infantis nos Estados Unidos e em países como o Brasil. No entanto, a decisão foi preventiva e não baseada em evidências de danos comprovados à saúde. Estudos científicos extensos não encontraram associação entre o uso de tiossérico e o autismo — uma das principais teorias defendidas por grupos antivacina.
Agora, em 2025, o comitê norte-americano — com a influência de novos membros ligados a Robert F. Kennedy Jr., conhecido por seu ativismo antivacina — recomendou que mesmo as vacinas contra a gripe deixem de utilizar o conservante. O argumento seria reduzir “qualquer risco desnecessário”, mesmo que esse risco nunca tenha sido validado pela ciência.
A American Academy of Pediatrics e outros órgãos de saúde reagiram com firmeza. Para eles, a decisão pode gerar um perigoso precedente: o de que questões ideológicas passem a sobrepor o método científico. Pior, pode causar um efeito cascata de insegurança pública, reabrindo um debate que já deveria estar encerrado — especialmente em tempos em que o combate à desinformação é um dos pilares da saúde pública global.
Embora a medida seja, por ora, norte-americana, especialistas brasileiros observam com atenção. O Brasil ainda utiliza frascos multi-dose em campanhas públicas e, em algumas situações, o tiossérico continua presente. Para a maioria dos infectologistas e epidemiologistas nacionais, a retirada do conservante sem substituto viável poderia dificultar o acesso à vacinação em larga escala e aumentar os custos do SUS — com impacto direto na imunização de populações vulneráveis.
Ao invés de proteger, a medida pode comprometer. Vacinas com conservante são seguras, e o risco de surtos gripais causados por queda na cobertura vacinal é infinitamente maior que qualquer suposto risco do tiossérico — que, como afirmam os cientistas, não oferece ameaça real à saúde humana.
Vivemos em uma era de sobrecarga de informações, onde a desconfiança se espalha mais rápido que um vírus. Em um cenário tão sensível, cada decisão deve ser respaldada por dados, e não por conveniências ideológicas. A retirada do tiossérico pode até parecer um gesto de zelo, mas carrega em si o potencial de minar décadas de confiança no sistema vacinal — uma das maiores conquistas da medicina moderna.
Vacinar é um ato de fé na ciência. Que nunca seja contaminado por incertezas fabricadas.
Por: Redação da Gazeta






































