Uma onda de roubos de veículos que há anos preocupa as autoridades canadenses ganhou uma dimensão internacional inesperada. Investigações apontam que milhares de automóveis levados das ruas do Canadá acabam atravessando fronteiras e chegando a mercados estrangeiros. Entre os principais destinos identificados está a Rússia.
A ligação entre os dois países passa, principalmente, pelas consequências das sanções econômicas aplicadas contra Moscou após a invasão da Ucrânia. As restrições comerciais e a saída de fabricantes ocidentais dificultaram o acesso dos consumidores russos a determinados veículos, mas não eliminaram a procura por modelos de marcas estrangeiras.
Nesse cenário, um mercado paralelo altamente lucrativo ganhou espaço. SUVs, caminhonetes e automóveis de maior valor roubados no Canadá passaram a ser retirados rapidamente do país, escondidos em contêineres e enviados para outros mercados internacionais antes de seguirem diferentes rotas até compradores no exterior.
Dados registrados pela Interpol ajudam a dimensionar essa conexão. Entre fevereiro de 2024 e julho de 2026, foram contabilizados 4.798 casos de veículos roubados no Canadá que posteriormente foram localizados na Rússia. O número chama atenção das autoridades porque representa apenas os automóveis efetivamente identificados nos sistemas internacionais, o que significa que a dimensão real do esquema pode ser maior.
Os veículos não necessariamente seguem diretamente do Canadá para território russo. Redes internacionais utilizam países intermediários e importantes centros comerciais para dificultar o rastreamento da origem dos automóveis. Os Emirados Árabes Unidos aparecem entre as principais rotas utilizadas, enquanto outros trajetos podem envolver países como Geórgia, Cazaquistão e Quirguistão.
O Porto de Montreal tornou se um dos pontos estratégicos no combate ao esquema. Contêineres que deveriam transportar mercadorias legítimas podem esconder veículos roubados avaliados em dezenas ou até centenas de milhares de dólares. O alto valor alcançado por determinados modelos no mercado clandestino torna a operação extremamente rentável para organizações criminosas.
O problema levou o Canadá a reforçar a fiscalização de cargas destinadas à exportação. Em 2024, a agência de serviços de fronteira canadense interceptou 2.277 veículos roubados nos portos e em outros pontos de saída do país. Em 2025, foram outros 1.590 automóveis.
As autoridades também passaram a investir em operações conjuntas envolvendo forças policiais, órgãos de fronteira e instituições financeiras. Uma das iniciativas recentes conseguiu recuperar centenas de veículos avaliados em dezenas de milhões de dólares antes que fossem enviados para mercados internacionais.
A relação com a Rússia, entretanto, não significa que o país tenha criado o problema dos roubos de automóveis no Canadá. Redes criminosas especializadas em furtar e exportar veículos já operavam anteriormente e outros mercados, especialmente no Oriente Médio e na África Ocidental, continuam aparecendo como destinos importantes. O que mudou foi o surgimento de uma demanda russa especialmente lucrativa por determinados veículos ocidentais.
O resultado é uma cadeia criminosa que começa muitas vezes em uma garagem ou estacionamento canadense e pode terminar a milhares de quilômetros de distância. As sanções destinadas a restringir o acesso da Rússia a produtos ocidentais acabaram produzindo um efeito paralelo inesperado: aumentar o valor de determinados automóveis e tornar o contrabando ainda mais atraente para organizações criminosas internacionais.
Por: Redação do Jornal Gazeta Nacional





































