A popularização das chamadas canetas emagrecedoras transformou o tratamento da obesidade e colocou medicamentos como semaglutida e tirzepatida entre os produtos mais procurados do mercado farmacêutico. No Brasil, entretanto, a corrida pelo emagrecimento também vem abrindo espaço para um problema que ultrapassa os consultórios médicos e chega às fronteiras do país: a expansão de um mercado clandestino de medicamentos.
Dados revelados nesta segunda feira, 31 de agosto, mostram que autoridades brasileiras registraram mais de 3.600 notificações de complicações relacionadas a medicamentos para perda de peso entre 2018 e meados de agosto de 2026. No mesmo período, 83 mortes associadas ao uso desses produtos foram registradas e permanecem sob investigação. Os números não significam que os medicamentos tenham sido comprovadamente responsáveis pelos óbitos, nem permitem determinar qual foi a participação de versões ilegais nos casos analisados.
A dimensão do comércio irregular aparece também nas apreensões. Em 2024, foram interceptadas 609 unidades ilegais de medicamentos da classe GLP 1 no país. Em 2025, esse número saltou para 60.787 unidades. Nas fronteiras, agentes já localizaram produtos escondidos em escapamentos de motocicletas, solas falsas de calçados e até dentro de recipientes de doce de leite. Em uma das operações, realizada em um ônibus procedente do Paraguai, mais de 2.500 frascos foram apreendidos.
O preço ajuda a explicar parte dessa procura. Produtos obtidos clandestinamente podem custar significativamente menos do que medicamentos comercializados pelos canais regulares, criando um mercado especialmente atraente para consumidores interessados em perder peso rapidamente. Uma estimativa do Itaú BBA citada pela Reuters aponta que fontes não rastreadas, incluindo medicamentos manipulados e produtos contrabandeados, podem representar 51% de um mercado brasileiro estimado em aproximadamente R$ 7 bilhões neste ano. É importante destacar que medicamentos manipulados produzidos dentro das normas sanitárias não devem ser equiparados aos produtos contrabandeados, que escapam da avaliação oficial brasileira.
A procedência se torna uma questão especialmente delicada porque esses medicamentos exigem condições específicas de conservação. Temperaturas inadequadas durante transporte e armazenamento podem comprometer os produtos. A Anvisa também vem reforçando a necessidade de prescrição e acompanhamento profissional para medicamentos da classe GLP 1. As novas canetas de semaglutida aprovadas recentemente para diabetes tipo 2, por exemplo, estão sujeitas à receita médica em duas vias e precisam permanecer refrigeradas em temperaturas entre 2 °C e 8 °C.
O avanço das apreensões revela um efeito paralelo da transformação provocada pelas canetas emagrecedoras. Ao mesmo tempo em que novos tratamentos ampliaram as possibilidades médicas para obesidade e diabetes, a enorme procura criou espaço para uma cadeia clandestina que encontra consumidores dispostos a comprar medicamentos sem saber exatamente sua origem, condições de transporte ou até mesmo quem os forneceu.
Em um mercado impulsionado pela promessa de resultados rápidos, o desafio das autoridades passa agora não apenas por ampliar o acesso aos tratamentos regulamentados, mas também por conter uma circulação ilegal que transforma uma tendência mundial de saúde em um novo e preocupante problema de segurança sanitária no Brasil.
Por: Redação do Jornal Gazeta Nacional






































