Existe uma crença silenciosa de que quem parece bem, está bem.
Mas exista outra, ainda mais cruel: o belo não pode sofrer.
A psicologia social já demonstrou que a aparência influencia profundamente a maneira como julgamos as pessoas. O chamado efeito halo faz com que uma característica positiva, como a beleza, contamine nossa percepção sobre outras características. O estudo clássico What is beautiful is good, de Dion, Berscheid e Walster, publicado em 1972, foi um dos marcos dessa discussão. O trabalho ficou conhecido por demonstrar o chamado estereótipo “o belo é bom”: pessoas consideradas fisicamente atraentes tendiam a receber avaliações mais positivas e a serem vistas como destinadas a vidas melhores.
É o chamado efeito halo em uma de suas manifestações: uma característica que percebemos como positiva pode influenciar a maneira como avaliamos todo o restante daquela pessoa.
Se associamos beleza a competência, felicidade, equilíbrio e sucesso, será que também associamos beleza à ausência de sofrimento?
É por isso que uma frase aparentemente inocente pode dizer tanto:
“Nossa, mas você está tão bem!”
Mas desde quando cabelo arrumado, maquiagem, roupa bonita ou um sorriso são atestados de felicidade?
Não são!
A aparência é pública. A dor, não.
A Constituição protege a dignidade, a intimidade, a vida privada e a imagem. A Lei Maria da Penha reconhece a proteção da saúde psicológica e da autodeterminação da mulher.
E autodeterminação também significa poder escolher como existir diante do mundo enquanto se atravessa aquilo que ninguém vê.
Poder se arrumar.
Poder sorrir.
Poder trabalhar.
Poder seguir.
E ainda assim estar sofrendo.
Talvez tenhamos nos acostumado a reconhecer a dor apenas quando ela vem descabelada, chorando e sem maquiagem.
Mas e quando ela vem de salto, roupa alinhada e maquiagem?
Ainda é dor.
Cuidar de si não significa que a dor acabou.
Significa apenas que alguém decidiu que a dor não terá a última palavra.
Por isso, talvez a pergunta não seja se alguém parece bem, seja o quanto somos capazes de respeitar aquilo que não conseguimos enxergar.
Se você só acredita na dor quando consegue enxergá-la, você está enxergando a pessoa ou apenas aquilo que ela permite que o mundo veja?
Até a próxima leitura. Nos reencontramos em breve.
Leila Santiago, advogada
@leilaasantiago





































