Passamos meses discutindo quem seria capaz de mudar o Brasil. Agora que as eleições terminaram, talvez seja hora de fazer uma pergunta um pouco mais difícil: como permitir que os brasileiros mudem a própria vida?
Penso especialmente nas mulheres que movimentam o comércio de moda do Bom Retiro e do Brás em São Paulo.
Em época de eleição, todos parecem ter uma solução para a economia. O curioso é que, passada a votação, a pequena lojista continua tendo que encontrar a sua. E sem direito a segundo turno para o boleto.
O Brasil convive com um paradoxo: queremos incentivar o empreendedorismo, mas mantemos um ambiente econômico que frequentemente dificulta a vida de quem tenta empreender. O desequilíbrio das contas públicas, entre outros fatores, pressiona os juros, encarece o crédito e torna mais difícil transformar uma boa ideia em um negócio sustentável.
E poucas pessoas conhecem tão bem essa contradição quanto as mulheres que vivem do comércio de moda.
Uma pequena compra, um celular e uma dose de coragem podem ser suficientes para começar. Primeiro vêm as vendas para as amigas, depois para as amigas das amigas e, quando percebe, ela já tem uma clientela, um instagram profissional e uma planilha que ninguém entende muito bem.
O problema é que começar um negócio e conseguir mantê-lo são duas profissões completamente diferentes.
Os juros elevados não encarecem apenas o dinheiro. Encarecem também as possibilidades. Para quem depende de crédito para comprar mercadorias, renovar o estoque e crescer, cada ponto percentual a mais pode significar um passo a menos em direção à independência.
Some-se a isso a complexidade tributária, os custos de contratação e os desafios de organizar jornadas de trabalho que respeitem direitos sem inviabilizar pequenas operações.
Nossa empreendedora começa vendendo roupas e termina especialista em finanças, logística, marketing digital e legislação trabalhista. Tudo isso enquanto tenta buscar o filho na escola antes que ele seja o último da turma.
É uma equação que faria muito economista pedir uma calculadora. Ela resolve com uma agenda, três grupos de WhatsApp e muita fé.
Mas existe uma consequência dessa história que raramente aparece nas discussões econômicas.
Para muitas mulheres, aquela primeira sacola de roupas representa mais do que uma oportunidade comercial. É a possibilidade de ganhar o próprio dinheiro, ajudar no sustento da casa e conquistar o direito de fazer escolhas sem depender financeiramente de outra pessoa.
E quando o ambiente econômico dificulta essa jornada, não estamos falando apenas de empresas que deixam de crescer. Estamos falando de autonomia que deixa de ser conquistada.
Uma mulher sem independência financeira pode encontrar mais obstáculos para sair de uma relação abusiva, decidir sobre a própria vida ou oferecer novas oportunidades aos filhos. O crédito caro, que parece um assunto distante, discutido por engravatados em Brasília, pode acabar contribuindo para desigualdades que atravessam gerações.
É curioso como uma decisão econômica pode percorrer um caminho tão longo até chegar à mesa de jantar de uma família.
Por isso, agora que os palanques foram desmontados, talvez a pergunta mais importante não seja o que os governantes prometem fazer pelas mulheres, mas quais condições estão dispostos a construir para que elas possam fazer por si mesmas.
Crédito acessível, responsabilidade fiscal, regras mais simples, qualificação e condições reais de crescimento não rendem necessariamente os discursos mais emocionantes. Mas podem transformar histórias que dificilmente aparecerão no horário eleitoral.
A moda vive de transformações e tendências passageiras. Mas há algo muito mais duradouro acontecendo entre as roupas, vitrines e ruas do Brás e do Bom Retiro.
Mulheres que, ao vender uma peça de cada vez, vão costurando a própria independência.
Talvez o melhor resultado de uma eleição não seja apenas escolher quem vai governar o país, mas criar condições para que mais pessoas possam governar a própria vida.
Liberdade não deveria ser artigo de luxo.
Autonomia financeira não deveria sair de moda.
Digo, de pauta.
Até mais!
Neto
@xisnando
Colunista de Moda e Comportamento







































