A moda tem o poder de contar histórias que as palavras nem sempre conseguem traduzir. Ela preserva memórias, atravessa gerações, provoca reflexões e revela a identidade de um povo. Foi justamente essa capacidade de transformar sentimentos e referências culturais em criações que marcou a 61ª edição da São Paulo Fashion Week, realizada entre os dias 13 e 18 de outubro de 2026, na capital paulista.
Mais do que apresentar novas coleções, a temporada encerrou oficialmente o ciclo de comemorações dos 30 anos da plataforma, consolidando uma trajetória que ajudou a transformar a moda brasileira em uma importante expressão cultural e econômica. Sob o tema Imaginários, inspirado no pensamento do escritor e líder indígena Ailton Krenak, o evento convidou estilistas, artistas e espectadores a refletirem sobre o futuro, a ancestralidade e as diferentes possibilidades de criação.
Ao longo de seis dias, a programação reuniu 24 apresentações de moda, além de projetos especiais, distribuídos entre o Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera, e outros espaços da cidade. O calendário contemplou estilistas consagrados, marcas independentes e novos talentos, evidenciando a pluralidade de linguagens que caracteriza a produção nacional.
A abertura da temporada ficou sob a responsabilidade de Alexandre Herchcovitch, que apresentou sua coleção na Fundação Armando Alvares Penteado, a FAAP. Reconhecido por sua capacidade de desafiar convenções, o estilista explorou referências históricas e uma estética que combinou romantismo, ousadia e experimentação. Rendas, transparências, volumes, estampas e sobreposições construíram uma apresentação que reafirmou sua identidade criativa e sua relevância na história da moda brasileira.
A diversidade de propostas ganhou força nos dias seguintes. A Catarina Mina levou à passarela a delicadeza do trabalho artesanal, valorizando saberes tradicionais e a riqueza cultural do Nordeste. A colaboração entre Sou de Algodão e Ronaldo Fraga reforçou o diálogo entre moda, matéria-prima e identidade brasileira, enquanto João Pimenta apresentou sua interpretação contemporânea da alfaiataria, demonstrando como técnicas clássicas podem encontrar novas possibilidades de expressão.
Entre os nomes que despertaram atenção, a Hisha marcou sua estreia na São Paulo Fashion Week com uma proposta que valorizou a construção das peças e o trabalho manual. A Handred reafirmou sua estética autoral, enquanto Lilly Sarti apresentou uma coleção marcada pelo refinamento das formas e pela valorização de uma feminilidade contemporânea.
A Santa Resistência trouxe referências culturais brasileiras para uma narrativa visual expressiva, aproximando moda, memória e identidade. Já Amir Slama revisitou o universo da moda praia, território no qual construiu uma trajetória reconhecida, demonstrando a capacidade de transformar elementos tradicionais em propostas atuais.
A experimentação também encontrou espaço nas apresentações da Artemisi, conhecida por aproximar tecnologia e moda, e de Dario Mittmann, cuja linguagem criativa explora referências da cultura pop e construções pouco convencionais. As coleções reforçaram a presença de uma geração interessada em romper padrões e ampliar os limites da criação.
Outro destaque foi a Aluf, que apresentou uma coleção de linguagem escultural, marcada pela investigação de formas, volumes e referências orgânicas. A Dendezeiro, por sua vez, reafirmou sua conexão com a cultura urbana e a identidade brasileira, levando à passarela uma estética que dialoga com juventude, pertencimento e representatividade.
Entre os movimentos mais perceptíveis da temporada estiveram a valorização dos trabalhos manuais, a presença de rendas e transparências, as modelagens amplas, as sobreposições e a construção de silhuetas que transitam entre o clássico e o experimental. Mais do que estabelecer tendências isoladas, as coleções demonstraram o interesse dos criadores em desenvolver peças carregadas de significado, nas quais técnicas, materiais e referências culturais ocupam lugar de destaque.
A relação entre moda e sustentabilidade também esteve presente nas discussões criativas da edição. O reaproveitamento de tecidos, a valorização de processos artesanais e a busca por novas formas de produção evidenciaram a preocupação de parte dos estilistas com os impactos da indústria e com a preservação de conhecimentos transmitidos entre gerações.
No último dia, a programação reuniu Foz, Ammi e Apartamento 03, encerrando a temporada com diferentes interpretações sobre identidade, memória e transformação.
A Foz, comandada por Antonio Castro, apresentou uma narrativa relacionada ao território, às viagens e às experiências de pertencimento, enquanto a Ammi integrou a programação com sua linguagem autoral.
Coube à Apartamento 03, de Luiz Claudio Silva, a responsabilidade de encerrar a edição. Com a coleção Atempo, a marca apresentou uma reflexão sensível sobre o passar dos anos, a beleza da maturidade e as marcas que a vida deixa nas pessoas e nos objetos. Tecidos reaproveitados, bordados, transparências e sobreposições deram forma a peças que valorizaram a permanência e a transformação.
O desfile também chamou atenção pela escolha de um elenco que reuniu diferentes gerações, identidades e trajetórias, incluindo modelos veteranas e mulheres que representam importantes conquistas sociais. Uma apresentação que ultrapassou o universo estético para propor uma reflexão sobre visibilidade, envelhecimento e diversidade.
O encerramento ganhou significado especial por sintetizar uma das mensagens mais importantes da temporada: a moda não pertence exclusivamente à juventude, a um único padrão de beleza ou a uma determinada forma de expressão. Ela acompanha a vida, registra mudanças e encontra novas possibilidades em cada geração.
A edição também marcou um movimento importante nos bastidores da plataforma. Foi anunciado um acordo de direitos de nome com a Mantecorp Skincare, que terá início em 2027 e duração prevista de sete anos, até 2034. A parceria representa uma nova etapa comercial e institucional para a São Paulo Fashion Week, que busca fortalecer sua atuação em um mercado cada vez mais conectado à inovação e à economia criativa.
Ao completar três décadas de história, a SPFW também atravessa um momento de transformação em seu calendário. A edição N61 apresentou uma programação mais enxuta em comparação com temporadas anteriores, movimento que acompanha mudanças na organização do setor e nas estratégias de apresentação das marcas. Ainda assim, manteve sua importância como vitrine de talentos e espaço de reflexão sobre os caminhos da indústria nacional.
Desde sua criação, em 1995, a São Paulo Fashion Week desempenha um papel fundamental na profissionalização da moda brasileira, contribuindo para a projeção de estilistas, modelos, profissionais de beleza, fotógrafos e diferentes agentes da cadeia criativa. Ao longo desse percurso, a plataforma ajudou a construir uma identidade própria para o setor, mostrando que o Brasil possui repertório cultural, capacidade técnica e talento para dialogar com os principais mercados internacionais.
A 61ª edição deixa como legado uma reflexão que ultrapassa as tendências de uma estação. Em um mundo marcado por transformações aceleradas, a moda brasileira demonstra que sua maior força está justamente na capacidade de preservar suas raízes enquanto imagina novos caminhos.
Entre a delicadeza do artesanato e a ousadia da tecnologia, entre a tradição da alfaiataria e a liberdade das construções contemporâneas, as passarelas revelaram um país plural, criativo e profundamente conectado às suas histórias.
Mais do que encerrar as comemorações de 30 anos, a São Paulo Fashion Week N61 reafirmou seu papel como um espaço de expressão, encontro e transformação. Uma temporada que celebrou o passado, reconheceu a força do presente e deixou uma mensagem para o futuro: a moda brasileira continua encontrando, em sua própria identidade, as razões para se reinventar e conquistar novos horizontes.
Por Redação do Jornal Gazeta Nacional






































