Por Paulo Freitas
Em 5 de agosto, o Comitê de Política Monetária reduziu a taxa Selic para 14% ao ano. Foi o quarto corte consecutivo, e o Boletim Focus já projeta 13,75% para o fim de 2026. A direção é positiva, o patamar continua restritivo. A leitura de manchete costuma ser sempre a mesma: o capital volta. Os números divulgados pelo setor nas últimas semanas contam algo mais interessante, e mais útil para quem decide onde alocar recursos em desenvolvimento urbano.
Os Indicadores Imobiliários Nacionais do segundo trimestre, divulgados em 24 de agosto pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção, mostram que as concessões do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo somaram R$ 93,7 bilhões no primeiro semestre de 2026. Desse total, R$ 26,5 bilhões foram destinados à produção, alta de 107% sobre o mesmo período de 2025, e R$ 67,2 bilhões à pessoa física, avanço de 12%.
Cabe a ressalva que a própria Abecip fez ao apresentar os dados em julho: parte dessa expansão decorre de uma base de comparação enfraquecida no início de 2025, e o volume atual representa mais uma recuperação de patamar do que um salto estrutural. Ainda assim, a proporção entre as duas curvas diz algo relevante. Com juro a 14% ao ano, o crédito à produção cresceu quase nove vezes mais que o crédito à compra.
Ou seja, o mercado escolheu se financiar para construir. É uma decisão racional e conhecida de quem estrutura operação imobiliária. A dívida de produção reduz a margem nominal do empreendimento, porém melhora o retorno sobre o capital próprio, porque comprime o volume de recursos do investidor exposto ao longo da obra.
Essa troca tem uma condição, e ela raramente é enunciada: só se sustenta se a obra sair no prazo. Crédito caro somado a atraso de execução produz o pior arranjo possível, com custo financeiro correndo sem aceleração de receita. Ao se alavancar para produzir, o mercado transferiu parte relevante do seu risco para dentro do canteiro.
No loteamento, essa transferência tem contornos próprios, e vale uma distinção que costuma passar batida em análises generalistas. Aqui não existe repasse bancário na ponta do comprador. Quem financia o cliente é o próprio loteador, com carteira própria, e é na taxa dessa carteira que boa parte da margem se forma. O loteamento é, no fim do dia, um negócio de originação e gestão de recebível.
A Selic, portanto, não chega pela prestação do comprador. Ela chega por três outras portas. A primeira é o custo de oportunidade do capital do investidor, que compara o empreendimento com a renda fixa. A segunda é a concorrência direta dessa mesma renda fixa pela poupança do cliente final. A terceira é a taxa de desconto aplicada à carteira quando o empreendedor busca liquidez em operações estruturadas, seja com fundo, investidor privado ou emissão de CRI. O efeito prático é o que interessa: juro alto tende a desacelerar a curva de vendas, e curva de vendas mais lenta amplia a exposição de caixa exatamente na fase de implantação, quando o custo da obra já saiu e a receita ainda não amadureceu.
É comum descrever essa etapa como um dilema circular. O empreendedor precisa vender para gerar caixa e executar a obra, mas parte dos clientes só decide comprar depois de ver a obra executada. Isso não é um dilema. É segmentação de demanda mal lida.
O comprador de fase inicial é, na maioria dos casos, investidor. Compra desconto e aceita risco de execução em troca de preço. O comprador tardio é usuário final. Compra tangibilidade, quer ver a rua pronta, a rede implantada, o acesso definido, e paga prêmio por isso. São dois públicos, com gatilhos distintos, e o que transfere demanda de um para o outro é o avanço físico da obra. O cronograma não atende à área comercial. Ele produz demanda.
Há aqui uma diferença estrutural entre loteamento e incorporação vertical, e ela é decisiva para quem modela retorno. Na incorporação, a conclusão da obra dispara o repasse do financiamento da unidade vendida. A data da obra tem uma função financeira definida por terceiros, e o cronograma nasce amarrado a ela.
No loteamento esse gatilho não existe. A conclusão da infraestrutura mitiga risco de distrato, encerra exposição a multa contratual e permite a regularização das etapas seguintes, porém não aciona, por si só, nenhum recebimento. O recebimento vem da carteira, no ritmo da carteira.
A consequência é contraintuitiva e pouco explorada: no loteamento, o cronograma é uma variável relativamente livre. Livre não significa arbitrária. Há um piso, dado pelo prazo de execução registrado, pelo risco de caducidade e pela garantia vinculada ao empreendimento. E há um teto, dado pela demanda, pelo compromisso comercial assumido e pelo risco de distrato do cliente que não vê a obra andar.
Entre esse piso e esse teto existe uma faixa de decisão. Antecipar desembolso dentro dela significa queimar margem em custo de carrego, especialmente com dinheiro a 14% ao ano. Postergar demais significa esbarrar em obrigação legal e destruir a confiança da carteira. Harmonizar a curva de desembolso com a curva de recebimento dentro dessa faixa eleva o retorno sobre o capital investido sem vender um lote a mais. É uma decisão de engenharia com efeito financeiro direto, e na maior parte dos empreendimentos ela simplesmente não é calculada.
Há ainda uma pressão de custo que merece atenção. O INCC-M fechou julho com alta de 0,62% no mês e 6,40% em doze meses, em desaceleração frente aos 7,43% acumulados até julho de 2025. Vale observar como o próprio setor utiliza esse indicador: nos Indicadores Imobiliários Nacionais, as séries de Valor Geral de Lançamentos e de Valor Geral de Vendas são atualizadas pelo INCC-DI. É o deflator padrão do mercado imobiliário brasileiro.
Ocorre que o INCC mede custo de construção habitacional. O custo de implantação de um loteamento é outra coisa: movimento de terra, drenagem, pavimentação e redes. Outra cesta de insumos, outros fatores de formação de preço, com peso muito maior de combustível, hora de equipamento e mão de obra de infraestrutura. E essa mão de obra está mais disputada. Dados apresentados pela CBIC em agosto mostram que a infraestrutura criou 64.793 vagas formais no primeiro semestre de 2026, alta de 30,26% sobre o mesmo período do ano anterior. Quem contrata terraplenagem hoje não disputa equipe com edifício residencial. Disputa com obra de infraestrutura.
Do lado da demanda, os números do segundo trimestre são consistentes. Foram vendidas 113.676 unidades residenciais no período, alta de 5,3% sobre o mesmo trimestre de 2025, contra 107.161 unidades lançadas, recuo de 1,3%. O tempo de escoamento do estoque caiu para 9,5 meses, ante 9,9 meses no primeiro trimestre e 10,2 meses no fechamento de 2025, segunda queda trimestral consecutiva. E a intenção de compra das famílias atingiu 52%, maior nível da série histórica, três pontos percentuais acima do registrado em 2025.
Do lado da atividade, o sinal é oposto. A Sondagem da Indústria da Construção, conduzida pela Confederação Nacional da Indústria, mostrou que todos os índices de expectativa para os próximos seis meses cruzaram para baixo da linha divisória dos 50 pontos em julho, mesmo depois de sucessivos cortes de juros.
O contraste é o ponto. Demanda em nível recorde de intenção, estoque em absorção mais rápida, e ainda assim expectativa empresarial em queda. A restrição do setor migrou. Ela não está mais concentrada no preço do dinheiro. Está na capacidade de executar dentro do prazo e dentro do orçamento previsto.
Com a Selic em 14% ao ano, o prêmio não está em antecipar o lançamento. Está em desenhar a curva de desembolso que sustenta a carteira. Cronograma físico de obra é instrumento financeiro. Precisa estar na mesa antes da decisão de aporte, e não depois, na reunião de acompanhamento de obra.
Há um segundo erro de leitura, igualmente caro, e ele é tema do próximo artigo: o índice que o mercado usa para corrigir o custo de um loteamento não mede o custo de um loteamento.
Por Paulo Freitas, engenheiro civil com MBA em Planejamento e Gestão Estratégica e MBA em Engenharia Diagnóstica, com mais de 15 anos de atuação em loteamentos urbanos e obras residenciais. Escreve sobre engenharia, gestão de obras e mercado imobiliário. Instagram: @paulohenriquefreitass





































