
Debates na Feiconference destacam mão de obra, planejamento e
industrialização como fatores centrais para a evolução do setor
A Feicon voltou a confirmar seu papel como um dos principais fóruns da construção civil brasileira. Realizado em São Paulo, entre os dias 07 e 10 deste mês, o evento reuniu representantes das maiores empresas da cadeia produtiva do setor e, por meio da Feiconference, concentrou uma agenda densa de debates técnicos que colocaram em evidência os desafios estruturais que ainda travam o avanço da indústria.
O diagnóstico que emergiu das discussões não é novo, mas ganhou contornos mais precisos: o setor já tem ferramentas disponíveis. O que falta, na avaliação dos especialistas presentes, é organização de processos. Produtividade, condições de trabalho, integração da cadeia e uso qualificado de tecnologia, dominaram os painéis e revelaram um setor em movimento, mas que ainda precisa superar gargalos históricos para competir em outro patamar.
Um dos painéis que mais gerou debate foi “Construindo com Menos Pessoas”, que trouxe uma leitura provocadora sobre a escassez de mão de obra. A conclusão desafiou o discurso mais corrente: o problema não está necessariamente na falta de interesse pelos trabalhos da construção, mas na forma como o setor se apresenta a quem poderia integrá-lo.
O perfil do trabalhador mudou. Com maior escolaridade e mais opções no mercado, ele compara. E quando compara, a construção civil frequentemente perde, não pela atividade em si, mas pelas condições historicamente associadas ao canteiro: esforço físico elevado, baixa previsibilidade e pouca valorização profissional.
O desafio, portanto, passa a ser tornar o setor mais atrativo, e não apenas reclamar da falta de mão de obra.
O mesmo painel trouxe um diagnóstico técnico que merece atenção. Dados apresentados apontam uma distorção recorrente no uso da mão de obra ao longo do cronograma das obras: a formação de um segundo pico de trabalhadores nas fases finais, já sinal de que algo saiu do planejado lá atrás.
Esse comportamento puxa as horas-homem para cima, prolonga prazos e alimenta um ciclo de retrabalho que corrói margens e reduz eficiência. Pior: parte significativa das horas trabalhadas nesse ciclo é gasta em atividades improdutivas, aquelas que não geram avanço efetivo na obra e não rendem ganho ao profissional. Um problema que, na prática, penaliza tanto o empresário quanto o trabalhador.
Os dados internacionais apresentados na Feiconference ajudam a dimensionar o problema. Enquanto o Brasil registra cerca de US$ 21,50 de produtividade por hora trabalhada na construção, os Estados Unidos alcançam aproximadamente US$ 81,80. A diferença é expressiva e aponta para um problema estrutural que vai além da jornada de trabalho, está na forma como o trabalho é organizado e executado.
No cenário global, a construção brasileira ainda gera pouca riqueza por hora, o que limita diretamente sua competitividade. E em um ambiente de margens cada vez mais pressionadas, esse número deixa de ser apenas uma estatística comparativa para se tornar uma questão de sobrevivência. Reduzir a jornada de trabalho sem antes resolver a ineficiência dos processos seria agravar o problema: menos horas em um setor que já produz pouco por hora significa obras mais caras, prazos maiores e pressão direta sobre um setor que responde por cerca de 6% a 7% do PIB brasileiro. Antes de trabalhar menos, é preciso produzir mais por hora.
Diante desse cenário, dois caminhos foram destacados com consistência ao longo dos debates: planejamento e industrialização. O primeiro porque a organização das etapas da obra, o sequenciamento adequado e a previsibilidade são os antídotos mais diretos contra o retrabalho. O segundo porque processos mais padronizados, repetitivos e controlados reduzem a variabilidade, diminuem a dependência de mão de obra intensiva e aumentam a produtividade de forma sistêmica, não pontual.
A industrialização da construção não é tema novo no setor, mas ganhou renovado protagonismo nos painéis como resposta prática, e não apenas conceitual, aos desafios levantados.
O uso de ferramentas digitais, como BIM e inteligência artificial, também esteve presente nos debates, mas com uma ressalva importante. Os especialistas foram enfáticos: tecnologia, por si só, não resolve os problemas da construção civil. A principal limitação ainda está na organização da informação. Dados dispersos e processos pouco estruturados inviabilizam a aplicação eficiente dessas soluções, por mais sofisticadas que sejam.
No caso específico da inteligência artificial, a aplicação prática tem avançado em análise de dados, automação de tarefas repetitivas e apoio à tomada de decisão. O impacto mais relevante, na avaliação dos especialistas, será na qualificação do trabalho: ao assumir as tarefas operacionais, a IA tende a ampliar a participação dos profissionais em atividades mais estratégicas, reforçando, e não substituindo, o papel técnico no setor.
O novo ambiente econômico entrou no debate como um fator de pressão, mas também de oportunidade. A reforma tributária comprime as margens do setor e reduz o espaço para ineficiências que, em outros momentos, eram absorvidas sem grande impacto. Empresas mal organizadas sentirão esse peso. Mas há outro lado: com a unificação dos tributos e a ampliação do crédito tributário ao longo da cadeia produtiva, construtoras organizadas poderão reduzir o custo efetivo de materiais e serviços, um ganho real para quem estiver preparado.
Nesse contexto, modelos mais produtivos e industrializados saem em vantagem dupla. Além de operarem com processos mais eficientes e custos mais previsíveis, tendem a se beneficiar de forma mais consistente do novo regime de créditos tributários, já que sua cadeia de fornecimento é mais estruturada e rastreável. A industrialização da construção, portanto, deixa de ser apenas uma resposta à escassez de mão de obra ou à busca por produtividade, passa a ser também uma vantagem tributária concreta.
A reforma não perdoa quem é ineficiente. Mas recompensa quem se organiza antes.
Outro ponto que perpassou os painéis foi a necessidade de maior integração entre construtoras, fornecedores, indústria e projetistas. A falta de alinhamento entre esses agentes tem impacto direto na produtividade e na qualidade das obras, e a evolução do setor, na visão dos especialistas, depende de uma atuação mais coordenada ao longo de toda a cadeia.

Ao reunir esse conjunto de debates com densidade técnica e relevância prática, a Feicon, e em especial a Feiconference, reafirmou seu papel como espaço importante de discussão e direcionamento da construção civil brasileira. Mais do que vitrine de inovações, o evento funcionou como um espelho do setor: capaz de mostrar com clareza onde estão os gargalos e, ao mesmo tempo, apontar os caminhos para superá-los.
O recado deixado na Feiconference é direto: a construção civil brasileira tem condições de avançar. Mas para isso, precisará produzir com mais eficiência, tratar melhor quem trabalha no setor e, acima de tudo, organizar o que já sabe fazer.





































