Uma coleção que resgata histórias, transforma tecidos e projeta a identidade de uma pequena vila italiana para uma passarela internacional.
Aos 22 anos, a designer de moda Cristina Biancarini transformou as memórias de Allerona, uma pequena vila nas colinas da Úmbria, na Itália, em inspiração para sua coleção autoral, LERONA. O projeto nasceu do desejo de preservar a identidade de sua comunidade por meio da moda, em um trabalho que une criação contemporânea, memória afetiva e valorização do artesanato.
Para desenvolver a coleção, Cristina convidou os moradores a doarem peças antigas guardadas em suas casas. Vestidos de noiva, rendas, ternos, roupas de cama e tecidos preservados por décadas ganharam novas formas e significados. Cada material carregava uma história particular, de casamentos e tradições familiares a lembranças de pessoas queridas que já partiram.
Entre as criações, destacam-se peças desenvolvidas a partir de vestidos de noiva e tecidos antigos, reinterpretados por meio da desconstrução e da alfaiataria. Mais do que reaproveitar materiais, a designer buscou preservar os vestígios de suas histórias, transformando-os em novas propostas estéticas. A coleção também reflete sua preocupação com o esvaziamento populacional da vila e o desejo de manter viva a cultura artesanal local.
O projeto foi apresentado em desfiles do Istituto Italiano Design, em Perugia, e chegou à Paris Fashion Week, onde dois looks da coleção ganharam a passarela. Para Cristina, a experiência representa não apenas uma conquista profissional, mas a possibilidade de levar a identidade de sua terra natal a um cenário internacional. Seu próximo grande sonho é retornar a Allerona e abrir um ateliê que contribua para renovar e preservar a tradição criativa da comunidade.
Na moda, olhar para o passado pode ser uma maneira de construir novos caminhos. Em LERONA, tecidos que poderiam permanecer esquecidos voltam a existir sob outra perspectiva, mostrando que uma roupa pode carregar muito mais do que forma e matéria: pode preservar afetos, contar histórias e manter viva a memória de um lugar.
Luciana Mamede
Coluna Ser & Estar
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