Em meio à efervescência criativa que marca mais uma edição da São Paulo Fashion Week, tive o prazer de convidar Arlindo Grund para uma entrevista exclusiva ao Jornal Gazeta Nacional. Referência na comunicação de moda brasileira, Arlindo compartilha um olhar sensível e criterioso sobre as transformações do setor, a valorização de nossas raízes e os desafios de uma indústria que ultrapassa as passarelas para traduzir cultura, identidade e comportamento. Uma conversa que revela não apenas as expectativas para esta temporada, mas também a força de uma moda brasileira que conquista seu espaço por meio da autenticidade.

1. Jornal Gazeta Nacional:
Arlindo, a São Paulo Fashion Week chega à sua 61ª edição reafirmando sua importância para a moda brasileira. A partir de sua experiência e trajetória no setor, quais são suas principais expectativas para esta temporada e o que acredita que poderá surpreender nas passarelas?
Arlindo Grund:
Acredito que esta edição da São Paulo Fashion Week evidencia um momento muito importante da moda brasileira, principalmente pelo reconhecimento de que temos uma identidade própria, construída a partir da nossa cultura, da memória, da diversidade, da criatividade e das diferentes maneiras de fazer moda.
Depois de tantos anos acompanhando as transformações desse mercado, percebo que um dos aspectos mais interessantes está justamente na diversidade de caminhos que as marcas e os criadores apresentam.
Existe responsabilidade, cultura, raiz e desejo. E acho que as pessoas também vão se surpreender justamente pela diversidade de caminhos, de materiais e de propostas.
Vejo o artesanato, a manualidade, o resgate de técnicas tradicionais e a alfaiataria ganhando espaço, enquanto novos criadores encontram maneiras contemporâneas de interpretar a nossa identidade.
O mais impressionante dentro do evento é a capacidade que o desfile tem de encantar, de gerar informação e de gerar conversa. E não precisa ser algo extravagante. Pode ser algo simples e básico dentro do conceito da moda.
2. Jornal Gazeta Nacional:
A comercialização de ingressos para o público, iniciativa já presente em edições anteriores, ganha novos formatos nesta temporada. Como você avalia essa aproximação entre o universo tradicionalmente restrito das semanas de moda e o público consumidor? Acredita que essa abertura representa uma democratização da moda ou uma transformação no próprio posicionamento do evento?
Arlindo Grund:
Acredito que a aproximação entre marcas, criadores e consumidores é fundamental para compreendermos as transformações que estão acontecendo no mercado da moda.
Quanto mais próxima essa relação, maiores são as possibilidades de os estilistas e criadores desenvolverem um olhar apurado sobre quem realmente consome aquilo que produzem.
Precisamos lembrar que, no final de toda essa cadeia, está o consumidor. É para ele que as marcas desenvolvem suas coleções, constroem suas narrativas e apresentam suas propostas.
Por isso, considero essa conexão cada vez mais importante para o fortalecimento do setor e para a construção de uma moda que dialogue com as necessidades e os desejos das pessoas.
3. Jornal Gazeta Nacional:
A SPFW sempre foi uma importante vitrine da identidade criativa brasileira. Em sua percepção, o que esta edição poderá revelar sobre a maturidade de nossos estilistas e a capacidade da moda nacional de conquistar maior reconhecimento internacional?
Arlindo Grund:
Acredito muito na capacidade que a moda brasileira tem de unir inovação e memória. Inovar não significa necessariamente abandonar aquilo que já existe. Podemos inovar a partir da nossa história, das nossas técnicas, das referências culturais e da identidade que cada marca construiu ao longo do tempo.
Uma marca pode preservar sua essência e, ao mesmo tempo, apresentar novidades ao consumidor. Não precisamos abrir mão da nossa identidade para sermos contemporâneos ou conquistarmos reconhecimento internacional.
A moda brasileira já tem o seu retrato 3×4. Ela está conectada com o seu tempo, com o nosso tempo, e tem essa capacidade de transformar criatividade em linguagem e linguagem em moda.
Acredito que o mundo está cada vez mais interessado em histórias verdadeiras, em criações que representem a cultura e o comportamento de seus países de origem.
E o Brasil tem uma riqueza extraordinária nesse sentido. Somos um país de dimensões continentais, com uma diversidade cultural imensa, diferentes técnicas, referências e maneiras de interpretar a moda.
Temos muitas histórias para contar, e acredito que essa autenticidade seja uma das nossas maiores forças no cenário internacional.

4. Jornal Gazeta Nacional:
Entre nomes consagrados e novos talentos, a programação reúne diferentes linguagens e propostas criativas. Quais movimentos, tendências ou mudanças de comportamento você espera observar nesta temporada?
Arlindo Grund:
Quando observo as pesquisas relacionadas ao comportamento do consumidor, percebo uma mudança importante na maneira como as pessoas se relacionam com aquilo que vestem.
Hoje, existe uma busca por peças que tenham significado, que expressem a história das marcas e que, principalmente, façam sentido na rotina de quem as utiliza.
A moda não deve ser compreendida apenas como um artigo de consumo. Ela também é uma ferramenta de comunicação e pode funcionar como uma facilitadora da nossa vida cotidiana.
Acredito em uma moda cada vez menos presa a regras e mais aberta à mistura de referências, materiais e possibilidades criativas.
Estar na moda não significa simplesmente acompanhar todas as tendências. É importante compreender o que faz sentido para cada pessoa e como nossas escolhas podem comunicar uma mensagem por meio da imagem.
Quando a São Paulo Fashion Week coloca diferentes marcas, uma mais sofisticada, uma mais do dia a dia, uma mais artesanal, outra mais tecnológica, coloca essas histórias e linguagens numa mesma prateleira e mostra que a moda brasileira realmente é diversa.
É justamente essa pluralidade que considero tão importante. Temos espaço para diferentes propostas, novos talentos, marcas consolidadas e maneiras distintas de compreender e produzir moda.
5. Jornal Gazeta Nacional:
Em um cenário no qual a moda ultrapassa as passarelas e dialoga cada vez mais com cultura, identidade e comportamento, qual mensagem você acredita que a São Paulo Fashion Week precisa transmitir nesta edição?
Arlindo Grund:
Acredito que precisamos compreender a moda de uma maneira muito mais ampla.
Moda não é só roupa. Moda é uma engrenagem de todo esse sistema que move a economia.
Estamos falando de um setor que envolve diferentes profissionais, processos criativos, produção, comunicação, mercado e consumo.
Mas a moda também é um reflexo do comportamento da sociedade. Ela revela quem somos, o momento que estamos vivendo, nossos desejos, nossas necessidades e as novas demandas que surgem ao longo do tempo.
Por isso, acredito que a São Paulo Fashion Week tem um papel fundamental ao reunir todos esses aspectos em uma mesma plataforma.
Moda é cultura, é comportamento, é identidade e também é economia.
Mais do que apresentar coleções, precisamos compreender a importância de ampliar esse diálogo entre criação, comportamento e mercado, reconhecendo a moda como uma expressão cultural e uma atividade econômica de grande relevância.
6. Jornal Gazeta Nacional:
Para finalizar, Arlindo, olhando para o futuro, o que você considera essencial para que a São Paulo Fashion Week continue fortalecendo sua relevância e ampliando o protagonismo da moda brasileira no cenário mundial?
Arlindo Grund:
Acredito que a São Paulo Fashion Week precisa continuar sendo uma plataforma capaz de reunir novos talentos, marcas consolidadas, experimentação e diferentes maneiras de produzir e apresentar uma coleção.
Essa liberdade criativa é fundamental para que possamos fortalecer uma moda brasileira autêntica, que tenha identidade, valorize suas origens e continue evoluindo.
Mas também precisamos compreender que, além de produzir cultura, a moda precisa produzir negócios.
É importante gerar oportunidades, fortalecer o mercado e aproximar cada vez mais os criadores das pessoas que estão do outro lado dessa relação.
Acredito que o futuro da moda brasileira passa justamente por esse equilíbrio entre criatividade, identidade e desenvolvimento econômico.
Temos uma linguagem própria, uma diversidade extraordinária e uma capacidade muito grande de transformar nossas referências culturais em moda.
O desafio é continuar fortalecendo essa identidade e criando oportunidades para que o mundo reconheça cada vez mais a força, a autenticidade e a diversidade da moda brasileira.
Por Suzi Freitas, Editora-Chefe do Jornal Gazeta Nacional





































