Se a moda é uma das formas pelas quais dizemos ao mundo quem somos, o que acontece quando ainda estamos aprendendo quem somos?
Eu sou o Neto, pai do Tom e da Luiza e escrevo especialmente para vocês que são pais e mães.
Há uma fase curiosa da vida em que escolhemos absolutamente tudo pelos nossos filhos. Escolhemos a roupa, o corte de cabelo, o desenho, o time de futebol – claro que aqui todos podem escolher torcer pelo Palmeiras – com alguma esperança, até a hora de dormir.
Depois eles descobrem uma palavra incrível: “não!”.
É uma ótima notícia!
Criamos filhos para o mundo, não para nós. Talvez uma das tarefas mais difíceis de ser pai ou mãe seja justamente perceber que aquela pessoinha que por alguns anos aceitou o vestido que colocávamos nela começa, pouco a pouco, a querer decidir quem será.
A moda participa desse processo.
Gilles Lipovetsky, em O Império do Efêmero, ajuda a entender como a moda deixou de ser apenas uma imposição coletiva para tornar-se também instrumento de individualização. Vestir-se é comunicar. É pertencer e, ao mesmo tempo, diferenciar-se. Escolhemos uma roupa e, sem dizer uma palavra, contamos alguma coisa sobre nós.
Mas existe uma questão que me inquieta.
E quando quem está fazendo essa escolha ainda é uma criança?
Trabalho com moda infantil e há uma frase que escuto com frequência de mães e pais que compram nossas roupas: “Gosto da Ópera pois respeita a infância”
Basta rolar nosso feed, verificar comentários que verá centenas de depoimentos parecidos. Alguns bem emocionantes, aliás.
É um elogio curioso.
Porque, pensando bem, roupa de criança respeitar a infância deveria ser uma coisa absolutamente normal.
Mas aparentemente deixou de ser tão óbvio assim.
Vivemos uma época em que as referências chegam cedo demais. A criança já não observa apenas os pais, os irmãos ou os colegas da escola. Ela recebe imagens de todos os lados. Vê influenciadores, artistas, adolescentes, publicidade e tendências que atravessam uma tela antes mesmo que nós, adultos, tenhamos tempo de perceber que chegaram.
E então surge uma situação desconfortável.
Queremos ensinar nossos filhos a escolher. Mas também somos responsáveis por protegê-los das escolhas para as quais talvez ainda não estejam preparados.
Não vejo nisso uma contradição.
Quando uma criança pede sorvete no jantar, não respondemos: “Respeito sua individualidade”.
Pelo menos espero que não. Com o Tom, eu sempre tentei deixar claro que fazemos o que tem que ser feito. Embora no final de semana a gente tome um sorvetinho e celebre isso juntos, durante a maior parte do tempo nos alimentamos bem, pois devemos cuidar do nosso corpo.
Não deixamos que decida sozinho a hora de dormir, o conteúdo que pode assistir ou se amanhã realmente precisa ir à escola.
Curiosamente, em algumas discussões sobre roupa, qualquer limite imposto pelos pais passou a parecer uma tentativa de impedir a personalidade da criança.
Talvez estejamos confundindo duas coisas muito diferentes: permitir que nossos filhos construam sua identidade e abrir mão da responsabilidade de ajudá-los nessa construção.
Uma criança pode escolher entre o azul e o amarelo. Pode gostar de vestido ou de calça. Pode até usar uma camiseta de poliéster do homem aranha, enquanto nós, adultos de gosto supostamente sofisticado, a consideramos um atentado contra a humanidade.
Está tudo bem!
Há uma beleza enorme nisso.
A infância também é o período de experimentar quem se é.
Mas liberdade não precisa significar ausência de fronteiras.
Existe uma diferença entre deixar uma criança expressar sua personalidade e antecipar nela códigos que pertencem ao universo adulto. Especialmente quando essa antecipação envolve exposição do corpo e uma imagem que ela talvez ainda não tenha maturidade para compreender.
Não se trata de criar filhos dentro de uma redoma.
Criamos filhos para o mundo. E justamente por isso precisamos prepará-los para ele.
Talvez a função dos pais não seja escolher quem nossos filhos serão. Também não acredito que seja simplesmente assistir, de braços cruzados, enquanto o mundo faz essa escolha por eles.
Entre controlar tudo e permitir tudo existe um território muito menos confortável: educar.
E educar dá trabalho.
Significa dizer “sim” quando nossa vontade seria escolher por eles. E significa também dizer “não” quando seria muito mais fácil dizer sim.
Um dia nossos filhos escolherão sozinhos suas roupas, suas amizades, seus caminhos e provavelmente muitas coisas que nós jamais escolheríamos.
Tomara.
Até lá, talvez nossa responsabilidade seja garantir que tenham tempo para descobrir quem são sem precisar parecer, antes da hora, aquilo que ainda não são.
Porque ensinar uma criança a se vestir não é escolher quem ela será.
É proteger o tempo necessário para que ela descubra.
Até mais!
Neto
@xisnando
Colunista de Moda e Comportamento





































