A próxima edição da São Paulo Fashion Week chega em um momento especialmente interessante para a moda brasileira. Depois de três décadas de história, o evento parece entrar em uma fase em que a discussão ultrapassa a tendência e passa a tocar em temas como identidade, comportamento, cultura, tecnologia, sustentabilidade e a própria forma como o brasileiro se relaciona com a roupa.
Depois de 15 anos cobrindo o evento, minha expectativa para essa edição é encontrar uma moda brasileira cada vez mais consciente de sua própria identidade. Não necessariamente uma moda que queira provar que é brasileira através de elementos óbvios, mas que consiga traduzir nossa cultura, nossos territórios, nosso artesanato e nossa diversidade em uma linguagem contemporânea, sofisticada e capaz de conversar com o mundo.
Também me interessa muito observar o encontro entre passado e futuro. O line-up reúne nomes que ajudaram a construir a história da moda brasileira ao lado de novas marcas e criadores. Essa convivência entre diferentes gerações pode revelar bastante sobre os caminhos que a nossa moda está tomando.
Acredito que o artesanal também terá um papel importante. Existe hoje uma valorização crescente do feito à mão, das técnicas tradicionais e da matéria-prima local, mas em diálogo com tecnologia, inovação e novas formas de produção. Para mim, esse encontro é um dos pontos mais interessantes do momento: talvez o futuro da moda não esteja em escolher entre o artesanal e o tecnológico, mas em descobrir como os dois podem existir na mesma narrativa.
A sustentabilidade também merece ser observada com um olhar mais maduro. Cada vez mais, a questão deixa de ser apenas “usar materiais sustentáveis” e passa a envolver todo o processo: de onde vem a matéria-prima, quem produz, como produzimos, quanto tempo aquela peça permanece relevante e o que acontece com ela depois.
Outro movimento que acredito que continuará forte é a transformação da alfaiataria. Um código historicamente associado ao vestir masculino vem sendo reinterpretado de inúmeras maneiras, ganhando novas proporções, volumes, materiais e possibilidades de uso. Ela aparece cada vez menos presa à formalidade tradicional e mais conectada ao cotidiano, ao conforto, às sobreposições e à mistura de códigos. É interessante observar como um elemento tão tradicional consegue continuar atual justamente porque aceita ser desconstruído e reconstruído.
E existe uma questão que considero ainda mais importante: o que a roupa está dizendo sobre nós?
A moda acompanha as mudanças da sociedade. Quando mudamos nossa relação com trabalho, corpo, consumo, tecnologia ou até com nossa própria identidade, isso inevitavelmente aparece na maneira como nos vestimos.
Por isso, não estou tão interessada em descobrir apenas qual será a próxima tendência da SPFW. Quero observar quais comportamentos estão pedindo para virar roupa.
Porque uma Fashion Week não serve apenas para dizer o que vamos usar. Ela também revela, de alguma maneira, quem estamos nos tornando.
E, depois de 30 anos de SPFW, talvez essa seja uma das perguntas mais interessantes para essa nova edição: que Brasil a nossa moda quer apresentar daqui para frente?
Camila Diniz
Consultora de Moda / Imagem





































