Escritório paulistano aposta em materiais naturais, referências japonesas sutis e ambientes acolhedores em dois endereços recentemente reconhecidos entre os melhores de São Paulo
Em projetos gastronômicos, a arquitetura pode ser o primeiro contato com uma experiência que continua à mesa. Fachada, luz, materiais, circulação e proporções ajudam a construir a atmosfera de um restaurante tanto quanto o menu. É a partir dessa premissa que o escritório Albert Sugai Arquitetura e Design vem desenvolvendo projetos que aproximam arquitetura, identidade e gastronomia.
Dois trabalhos recentes do escritório ganharam destaque no cenário gastronômico paulistano. Inaugurado há apenas um ano, o Miyabi, em Pinheiros, foi eleito o melhor japonês pela VEJA São Paulo. Já a Amay Pâtisserie, também projetada pela equipe, acaba de conquistar pela quarta vez consecutiva o reconhecimento como Melhor Doceria de São Paulo.
Em comum, os projetos partem de imóveis existentes e propõem intervenções que procuram preservar a essência dos espaços, ao mesmo tempo em que criam novas narrativas para eles. O resultado são ambientes contemporâneos, de personalidade definida, mas sem excessos, uma característica que atravessa o trabalho de Albert Sugai.
Miyabi: a arquitetura como ritual
A palavra japonesa Miyabi (雅) está relacionada a conceitos como elegância refinada, beleza sutil, graça e sofisticação sem ostentação. Mais do que uma referência nominal, esse conceito foi utilizado como ponto de partida para a arquitetura e para a identidade visual do restaurante.
Instalado em um imóvel da década de 1950, em Pinheiros, o projeto ressignifica a construção existente para abrigar diferentes experiências gastronômicas: doceria (Amay Patisserie), bar de saquê e um restaurante omakase intimista.
A fachada estabelece o primeiro capítulo dessa narrativa. A madeira lamelada colada ganha uma composição inspirada nos beirais dos palácios de Kyoto. As ripas funcionam como um filtro entre interior e exterior, deixando a luz atravessar os planos e projetando sombras que mudam ao longo do dia.
A varanda criada a partir dessa intervenção funciona como um espaço de transição. Não é apenas uma área de chegada, mas um limiar entre a cidade e a atmosfera mais contemplativa proposta pelo restaurante.
No interior, a linguagem se torna ainda mais silenciosa. Portas ripadas conduzem ao salão do omakase, concebido para apenas 15 pessoas. A madeira em tons claros de maple, a iluminação pontual e a simplicidade dos elementos fazem com que o balcão se torne o centro da experiência.
A arquitetura acompanha, assim, o próprio ritual do omakase: poucos elementos, gestos precisos e atenção aos detalhes.
A identidade visual também foi desenvolvida pelo escritório. O logotipo parte de um hexágono que abriga uma flor de crisântemo. A composição das pétalas, agrupadas de duas em duas, cria três formas de coração, traduzindo graficamente conceitos de equilíbrio, delicadeza e continuidade.
“Transformar uma estrutura existente em um espaço de tamanha harmonia foi, para nós, um exercício de escuta”, explica Albert Sugai. “Acreditamos que a arquitetura não altera o sabor da comida, mas potencializa a experiência, ampliando a percepção sobre o tempo e o gesto.”
Amay Pâtisserie: um casarão dos anos 1950 reinventado
A poucos minutos da Avenida Paulista, a Amay Pâtisserie/Mega Sake ocupa o térreo de um casarão da década de 1950. O imóvel, marcado por uma planta fragmentada e por um pé-direito duplo em determinados pontos, apresentava um desafio: conciliar as necessidades operacionais de uma pâtisserie contemporânea com uma experiência capaz de traduzir, de maneira não literal, a influência japonesa presente na marca.
Criada para a chef Aya Tamaki, a casa reúne doces e salgados que combinam técnica francesa e tradição japonesa. O endereço também incorpora uma experiência dedicada ao saquê, com dispensers de autosserviço e uma área inspirada no Tachi Nomi, conceito japonês de beber em pé.
Para o escritório, a solução passou por uma linguagem que evita a reprodução direta de elementos tradicionais japoneses. Em seu lugar, aparecem madeira, transparências, iluminação e proporções cuidadosamente trabalhadas.
Na fachada, a porta ripada de madeira Tauari estabelece a entrada, enquanto a vitrine expõe garrafas de saquê sobre um painel do mesmo material. Toldos em rosa filtram a luz e criam uma camada visual delicada, funcionando quase como uma cortina entre a rua e o interior.
Dentro, os elementos arquitetônicos ganham continuidade. O pé-direito duplo valoriza a marca, enquanto painéis em Tauari folheado percorrem as paredes. A escolha da madeira foi feita pessoalmente pelo arquiteto, e as lâminas foram aplicadas uma a uma, reforçando o caráter artesanal da intervenção.
O balcão escuro cria um contraponto à madeira clara e funciona como uma vitrine para os doces. Ao lado, a área de degustação foi desenhada para estimular a permanência.
Outro ponto fundamental foi a integração das cozinhas ao projeto. O layout foi cuidadosamente estudado para aproveitar cada metro quadrado e, ao mesmo tempo, permitir que parte do processo de produção pudesse ser percebida pelos visitantes.
Na área posterior, uma cobertura retrátil transforma o espaço em uma espécie de pátio interno, ampliando a experiência e criando uma área de permanência mais aberta.
O projeto, que já havia recebido reconhecimento em premiações gastronômicas, chega agora à sua quarta conquista consecutiva como Melhor Doceria de São Paulo.
Entre tradição e contemporaneidade
Embora tenham propostas distintas, Miyabi e Amay revelam uma mesma abordagem projetual. Em ambos, referências japonesas aparecem de maneira contida, combinadas a uma estética contemporânea, cosmopolita e essencialmente acolhedora.
Para Albert Sugai, o desafio está justamente em encontrar o equilíbrio entre identidade e conforto.
“A arquitetura precisa ter personalidade, mas não pode perder a capacidade de acolher. Em um restaurante, queremos que o ambiente desperte o olhar, mas que, depois de alguns minutos, ele deixe de ser protagonista e passe a fazer parte naturalmente da experiência”, afirma.
Essa relação entre arquitetura e gastronomia também aparece em outros projetos do escritório, como o Yorimichi Izakaya e o Restaurante Al Jafar, que anteriormente também receberam reconhecimento no segmento gastronômico.
Mais do que criar cenários para restaurantes, o trabalho do escritório Albert Sugai parte da ideia de que cada empreendimento possui uma história própria. Cabe à arquitetura traduzi-la em espaço, por meio da matéria, da luz, do percurso e, principalmente, da sensação de estar ali.
No Miyabi, essa narrativa se aproxima do silêncio e da precisão do universo japonês. Na Amay, ganha contornos mais cosmopolitas, entre pâtisserie francesa, cultura japonesa e vida urbana paulistana.
Em ambos, a arquitetura procura fazer algo aparentemente simples: criar espaços nos quais as pessoas tenham vontade de permanecer.
Créditos
Foto: Martin Szmick (foto Miyabi) e Foto: Carolina Mossin (foto Amay)
Por: Redação do Jornal Gazeta Nacional





































