Entre silhuetas históricas, referências brasileiras e o trabalho artesanal, Amanda Felisberto propõe uma reflexão sobre o luxo das manualidades.
Há desfiles que se revelam look a look. Na passarela da Ammi, na São Paulo Fashion Week, a sensação foi acompanhar uma paisagem a ganhar forma sobre o corpo: primeiro a terra, depois o brilho mineral, até a explosão de cores que evocavam flores, pétalas, o mar e as conchas. Em “Forma Viva”, Amanda Felisberto transforma o crochê numa linguagem de formas, texturas e movimento, aproximando o trabalho artesanal de uma leitura contemporânea da silhueta feminina.
A estreia da marca no calendário oficial da SPFW começou em grande estilo, com Isabeli Fontana abrindo o desfile. Ao longo da apresentação, a coleção revelou um universo de referências naturais, mas também históricas, em que a delicadeza das tramas convive com construções volumosas e uma feminilidade de contornos marcados.
Um dos aspectos mais interessantes estava justamente na silhueta. Os quadris ganham protagonismo em peças de estrutura quase escultural, que remetem tanto ao volume das saias da indumentária tradicional baiana quanto às proporções da moda europeia do século XVIII. São referências distintas que se encontram na construção do corpo pela roupa, criando silhuetas que evocam outros tempos sem perder a contemporaneidade. A estrutura dos quadris, em particular, trouxe essa associação com a saia baiana, não pela reprodução literal da peça, mas pelo volume e pela arquitetura que ela imprime à silhueta.
Mas é o movimento que impede a estrutura de se tornar rígida. Franjas que surgem por baixo das peças, bordados, babados e aplicações acompanham o corpo e acrescentam dinamismo às silhuetas. O trabalho manual não se limita à ornamentação: é parte da própria construção da roupa, definindo volumes, texturas e a maneira como cada look se movimenta na passarela.
A paleta também contribuiu para essa narrativa. Os tons terrosos evocam a origem, a matéria-prima, a terra. Aos poucos, o dourado introduz luminosidade, enquanto os rosas, verdes e azuis ampliam a paisagem, remetendo a flores, folhagens, águas e conchas. O brilho das pedrarias e a riqueza dos bordados acrescentam novas camadas a essa composição, sem perder a conexão com o universo orgânico que inspira a coleção.
Fundada em 2018, a Ammi tem no crochê o centro da sua identidade. As peças são produzidas à mão por uma rede de aproximadamente 300 crocheteiras e bordadeiras espalhadas pelo Brasil, um trabalho colectivo que coloca o saber artesanal no centro do processo criativo. É também aí que a coleção ganha outra dimensão: por trás de cada textura existe um tempo de produção que contrasta com a velocidade habitual da indústria da moda.
Em conversa sobre o trabalho, Amanda resumiu essa valorização numa frase que merece atenção: “O mundo inteiro está enxergando luxo nas manualidades”. A afirmação dialoga com o próprio imaginário desta edição da SPFW, que propõe um olhar sobre as referências, os saberes e as expressões que constituem a nossa identidade. No caso da Ammi, a brasilidade não aparece como um elemento decorativo, mas como parte de uma linguagem construída através da técnica, do conhecimento e do trabalho de muitas mãos.
Não é a primeira vez que o crochê e outras técnicas artesanais ultrapassam o território historicamente associado à roupa casual ou às saídas de praia para conquistar espaço em coleções de moda, passarelas e ocasiões de maior formalidade. O que vemos é uma mudança de percepção: aquilo que durante muito tempo foi associado ao quotidiano ou ao fazer doméstico passa a ser reconhecido também pela sua complexidade, pelo seu valor estético e pela exclusividade de cada peça. O luxo, nesse contexto, não está apenas no material ou no acabamento, mas no tempo, na habilidade e na singularidade do que é feito à mão.
A própria coleção é fruto desse tempo. Amanda comentou sobre o período necessário para desenvolver as peças, um processo que, segundo a minha lembrança da conversa, levou cerca de dois meses. É uma dimensão importante para compreender uma proposta em que a complexidade não depende apenas da imagem final, mas de uma construção minuciosa, ponto a ponto.
A apresentação marcou ainda a estreia da linha de calçados da Ammi, cujas formas orgânicas, franjas e bordados prolongam a linguagem da coleção para além das roupas. Poucos dias antes, a marca havia inaugurado a sua primeira loja física na rua Oscar Freire, em São Paulo, assinalando uma nova etapa na sua expansão.
Na passarela, “Forma Viva” propôs um diálogo entre brasilidade, referências históricas e natureza. Mais do que reproduzir elementos naturais, a coleção explorou como essas formas podem transformar a silhueta, criar movimento e dar expressão ao trabalho artesanal. Entre quadris estruturados, franjas em movimento e uma paleta que parece percorrer diferentes paisagens, a Ammi apresentou uma visão de feminilidade que encontra na manualidade não apenas uma técnica, mas uma forma de construir identidade. E talvez seja justamente aí que esteja o luxo: na capacidade de transformar conhecimento, tradição e tempo em algo que não poderia ser produzido de outra maneira.
Por Eliza Rinaldi
@eliza_rinaldi
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