Há lugares que servem muito mais do que aquilo que chega à mesa. Guardam histórias, atravessam gerações e se tornam testemunhas privilegiadas da cultura de uma época. Poucos endereços representam tão bem essa atmosfera quanto o Les Deux Magots, instituição parisiense que construiu parte de sua identidade entre escritores, filósofos, artistas e conversas que ajudaram a marcar a vida intelectual francesa.
Agora, essa herança ganha novos capítulos em São Paulo. A unidade brasileira do Les Deux Magots realiza sua primeira edição cultural, intitulada Vive la France com Les Deux Magots, uma sequência de quatro encontros que propõe uma delicada aproximação entre literatura, gastronomia e escrita criativa.
A programação começou em 29 de setembro e segue até 26 de outubro, sob a condução da escritora e apresentadora Sandra Acosta. Em grupos restritos a 30 participantes, cada encontro parte de uma obra literária ligada à França para criar uma experiência que ultrapassa a leitura convencional. Trechos dos livros são apresentados ao público e servem como inspiração para uma oficina de escrita criativa, seguida pelo compartilhamento dos textos e das percepções despertadas durante a experiência.
Mestre em Escrita Criativa pela Universidade de Coimbra, Sandra conduz os participantes por um território em que memória, imaginação e palavra se encontram. Mais do que ensinar técnicas de escrita, a proposta é recuperar algo cada vez mais precioso na vida contemporânea: tempo para observar, sentir, conversar e transformar experiências em narrativa.
E, no Les Deux Magots, naturalmente, a literatura também encontra a gastronomia.
Para acompanhar cada encontro, o chef Erick Grossi desenvolveu menus especiais, servidos em formato de chá da tarde ou em encontros noturnos, de acordo com a programação. Queijos franceses, salmão defumado, steak tartare, croquete de bourguignon, queijo de cabra com mel trufado, cafés e espumante aparecem entre as escolhas que acompanham essa viagem sensorial.
A seleção literária reforça a atmosfera francesa da experiência. Depois da abertura com Paris é uma Festa, de Ernest Hemingway, em 29 de setembro, a programação recebe nesta quarta feira, 7 de outubro, As Inseparáveis, de Simone de Beauvoir. No dia 21, será a vez de O Fantasma da Ópera, de Gaston Leroux. O encerramento acontece em 26 de outubro com O Estrangeiro, de Albert Camus.
A iniciativa parece especialmente coerente com a história do endereço que a abriga. Fundado em Paris em 1884, o Les Deux Magots tornou se um dos símbolos da efervescência intelectual de Saint Germain des Prés. Suas mesas foram frequentadas por personalidades como Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Ernest Hemingway e Oscar Wilde. Em 1933, o estabelecimento também se tornou berço do Prix des Deux Magots, tradicional prêmio da literatura francesa.
Essa memória cultural acompanha a unidade paulistana, inaugurada em 2023 na Rua Colômbia, no Jardim América. Terceira operação internacional da marca, a casa procura transportar para São Paulo não apenas elementos da gastronomia francesa, mas o espírito de um café no qual arte, pensamento e convivência sempre fizeram parte da experiência.
O projeto arquitetônico de Chino de Luca reforça essa conexão. Paisagismo exuberante, biblioteca, obras de arte, fotografias e mobiliário inspirado na histórica matriz parisiense compõem um cenário que convida à permanência. Na cozinha, receitas tradicionais francesas dividem espaço com opções de petit déjeuner servidas ao longo do dia e uma seleção de vinhos de diferentes origens.
Criado e produzido pela Lead Co. Press, o Vive la France encontra justamente nessa atmosfera sua maior força. Em tempos de encontros rápidos e relações cada vez mais mediadas pelas telas, sentar se diante de um livro, dividir uma mesa, escrever e ouvir outras histórias adquire um significado quase precioso.
Talvez esteja aí a verdadeira essência da proposta. Por algumas horas, São Paulo diminui o ritmo e Paris parece um pouco mais próxima. Entre uma página, um café e uma conversa, o Les Deux Magots recupera aquilo que seus salões aprenderam há mais de um século: algumas das experiências mais memoráveis começam simplesmente quando pessoas, ideias e histórias se encontram.
Os ingressos custam R$ 400, além das taxas de serviço, e incluem a participação na experiência, o menu preparado para cada encontro e um mini caderno artesanal destinado às anotações da oficina.
Por Redação do Jornal Gazeta Nacional






































