São Paulo, 16 de outubro de 2026. A moda brasileira vive um momento em que a beleza das criações ultrapassa os limites da estética e encontra novas formas de expressar identidade, cultura e sensibilidade. Na 61ª edição do São Paulo Fashion Week, realizada no Parque Ibirapuera, três apresentações revelaram diferentes interpretações dessa linguagem, demonstrando que a verdadeira elegância também pode nascer da memória, das tradições e da capacidade de transformar sentimentos em arte.
Em cobertura presencial nos dias 15 e 16 de outubro, o Jornal Gazeta Nacional acompanhou os desfiles de Catarina Mina, Sou de Algodão com Ronaldo Fraga e Lilly Sarti. Embora distintas em suas propostas criativas, as coleções compartilharam uma característica essencial: a valorização de histórias que encontram na moda uma forma de permanecer vivas.
Catarina Mina: quando o sertão floresce na passarela
A delicadeza do trabalho artesanal ganhou protagonismo na apresentação da Catarina Mina. Com a coleção Bonito pra Chover, a marca cearense transformou a relação entre a chuva e o sertão em uma narrativa visual marcada pela sensibilidade e pela valorização das tradições brasileiras.
Sob a direção criativa de Celina Hissa, a coleção reuniu técnicas desenvolvidas por artesãos do Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí. Crochês, rendas, bordados e diferentes trabalhos manuais traduziram, por meio de texturas e movimentos, a transformação da paisagem nordestina após a chegada da água.
Os tons de azul e cinza dialogaram com superfícies delicadas, transparências e construções que equilibraram leveza e sofisticação. Entre vestidos fluidos e peças contemporâneas, a marca apresentou uma moda que reconhece o valor das mãos responsáveis por cada criação.
Mais do que uma homenagem à natureza, a apresentação reafirmou a importância de preservar conhecimentos transmitidos entre gerações, mostrando que o artesanato brasileiro ocupa um lugar legítimo nas passarelas de maior prestígio.
Ronaldo Fraga e Sou de Algodão: roupas que guardam histórias
A emoção encontrou espaço na passarela com Cartas de Algodão, coleção criada por Ronaldo Fraga para celebrar os dez anos do movimento Sou de Algodão, iniciativa da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão.
Conhecido por transformar referências culturais e afetivas em narrativas de moda, o estilista mineiro buscou inspiração nas correspondências antigas, nos sentimentos preservados pelo tempo e nas lembranças que acompanham a vida cotidiana.
A coleção apresentou tonalidades naturais, variações de branco, bordados, recortes, sobreposições e construções que evocavam a delicadeza de papéis envelhecidos e tecidos carregados de significado.
Um dos elementos mais singulares estava nas mensagens incorporadas às roupas. Pequenos envelopes de tecido guardavam textos e sentimentos, estabelecendo uma relação íntima entre a peça e quem a veste.
A apresentação também evidenciou possibilidades criativas de reaproveitamento têxtil e a importância do algodão brasileiro na construção de uma moda que reconhece suas origens.
Em uma época marcada pela velocidade das tendências, Ronaldo Fraga apresentou uma reflexão sobre aquilo que permanece. Afinal, algumas roupas ultrapassam sua função original e se tornam parte da história de quem as escolhe.
Lilly Sarti: a elegância encontra a força da delicadeza
Na sexta-feira, 16 de outubro, Lilly Sarti levou à passarela uma interpretação sofisticada da feminilidade contemporânea, explorando o encontro entre suavidade, romantismo e estrutura.
Inspirada pelo simbolismo do Ano da Cabra no calendário chinês, correspondente a 2027, a coleção apresentou uma pesquisa de materiais e formas que traduzem a harmonia e a persistência feminina.
Ao som de piano executado ao vivo, a apresentação reuniu tecidos fluidos, como tule e georgette, em contraste com materiais de maior estrutura, entre eles gabardines, tricolines e couro de textura macia.
Jacquards com desenhos inspirados nas formas dos chifres, estampas clássicas, listras e xadrezes contribuíram para uma composição visual em que a tradição encontrou uma leitura contemporânea.
Os acessórios acrescentaram personalidade às produções, com bolsas, detalhes bordados, pérolas e calçados que complementaram a elegância das silhuetas.
A coleção demonstrou que delicadeza e força não precisam ocupar lugares opostos. Ao contrário, podem coexistir em uma mulher que reconhece sua identidade e encontra no vestir uma extensão de sua personalidade.
A convite da marca, Suzi Freitas, editora-chefe do Jornal Gazeta Nacional, acompanhou a apresentação vestindo uma criação da própria Lilly Sarti, em uma experiência que aproximou a cobertura jornalística do universo estético apresentado na passarela.
Três interpretações, uma identidade criativa
Ao reunir propostas tão distintas, a 61ª edição do São Paulo Fashion Week evidencia a pluralidade da moda nacional.
Catarina Mina encontra na ancestralidade artesanal uma expressão de beleza e pertencimento. Ronaldo Fraga transforma lembranças e palavras em peças carregadas de significado. Lilly Sarti apresenta uma feminilidade sofisticada, na qual a sensibilidade convive com a força.
São diferentes caminhos criativos que se encontram na valorização da identidade, do trabalho e da expressão individual.
Sob o tema Imaginários, a edição integra as celebrações dos 30 anos do São Paulo Fashion Week e reforça o papel da moda como manifestação cultural, artística e social.
Entre fios, tecidos, memórias e movimentos, as passarelas brasileiras mostram que vestir também é uma maneira de contar histórias. E são justamente essas histórias que tornam a moda capaz de atravessar o tempo.
Por Suzi Freitas, Editora-Chefe do Jornal Gazeta Nacional







































